20 de novembro de 2015

DESEJO / TENSÃO / TRANSIÇÃO - Experimenta DESIGN 2015 - ExD15 - na Galeria NAVE em Matosinhos

Este ano, a novidade da Experimenta Design 2015 não é só o facto de se ter espalhado e ter mais dois pólos no Norte, mais precisamente em Matosinhos e no Porto. 
A novidade é que há um núcleo de desenhos sob o tema  

"DESENHAR O MODERNISMO" 

que apresenta cerca de 75 desenhos inéditos de Mestre António Soares!

A exposição de Matosinhos vai estar patente de 12 de Novembro até 12 de Março de 2016, todos os dias úteis - de Segunda a Sexta das 9h - 12h e 14h - 17 - Sábado das 15h - 18h.



O convite que aqui fica é irem visitar o núcleo de Matosinhos - Galeria Nave da Câmara Municipal de Matosinhos. 
De qualquer modo, iremos colocar aqui as imagens que estão patentes, como meio de divulgar ainda mais o nome de Mestre António Soares, desta feita como um dos "pais" do Design Português...


A PINTURA MODERNISTA na Colecção MillenniumBCP (2)

Justifica-se e tem actualidade. Logo juntaremos mais imagens da colecção António Soares na colecção Millennium BCP.

Esta exposição apresenta uma selecção das obras da Colecção Millennium BCP  cujos autores iniciaram as suas carreiras nas primeiras três décadas do século XX. Para a história da arte, são artistas modernistas que questionaram os processos da pintura naturalista, empenhada na verosimilhança entre o visto e o representado. Os modernistas, pelo contrário, não acreditam nessa naturalidade do ver: pretendem que o espectador não confunda a realidade com a pintura e sugerem que esta pode enriquecer aquela, através da imaginação plástica.
Na maioria dos casos, as obras expostas confirmam o que a história da arte foi elaborando, mas, noutros, a surpresa pode emergir. Este é o desafio que a exposição propõe, quer aos especialistas, quer os visitantes interessados: que cada um indague e encontre afinidades emotivas e estéticas que confirmem (ou perturbem) o que antes sabia ou amava.
Raquel Henriques da Silva
Curadora da Exposição


Exposição composta por 60 obras de 15 artistas modernistas portugueses: António Carneiro; Amadeo de Souza-Cardoso; Eduardo Viana; José de Almada Negreiros; Francis Smith; António Soares; Mily Possoz; Jorge Barradas; Bernardo Marques; Mário Eloy; Júlio Reis Pereira; José Dominguez Alvarez; Carlos Botelho; Dordio Gomes; Carlos Carneiro.

Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco
Campo Mártires da Pátria; S/N (Devesa)
6000-097 Castelo Branco
13 Nov  2015 > 10 Abr 2016
Entrada gratuita
Ter > Dom 10h > 13h / 14 >18h
Encerra segundas-feiras

"Velhos Bairros ao Sol" - 1932

«O PINTOR ANTÓNIO SOARES» pelo Dr. Horácio Bento de Gouveia

in «Diário de Notícias» - FUNCHAL

Eu o conheci. Há muitos, há poucos anos? O calendário, na sua linguagem numérica, esfumadamente, atesta à memória, onde o tempo reside, lá no mais secreto e fundo dos refolhos que já vão mais de dezoito anos. Eu não quis crer, mas a certeza da experiência que os sentidos e a reflexão vêm enchendo a memória de segmentos psíquicos, imagens de todas as sensações que se sobrepõem consoante as idades, não iludem. Além de que a consciência não desmente, porque a marca do tempo gravou-se-me no rosto. Os sulcos mais profundos o dizem. Olho para o espelho que não é mais especioso a esta verdade física, cada vez mais remordente: o envelhecimento das faces.
Tenho pois a certeza: o tempo vive em mim, e como eco longínquo e morrente e pungente de uma voz que agoniza e identifica a pessoa, assim eu estou a ver Mestre Pintor António Soares. E a lembrança em que o artista avulta é temporal e humana. É espacio-temporal. E se não vejamos: foi por um Outubro de Lisboa, de céu escuro. As noites vinham cedo. A essa hora, nos Restauradores, sentia-se ininterrupta a imagem táctil da viração algida que fazia o corpo reagir com movimentar-se as mãos nas algibeiras, um passeio curto abaixo e acima e os olhos atentos nos vultos que perpassavam. Eram quase sete horas e meia. Estava desagradável, hostil, a noite. E quando os olhos na ilusão espectante do ser que é, e não é, de repente aparece-nos a figura gentilhomem do célebre pintor de D. Luíza de Guzmão. Alto direito, transparecia no semblante o jovem que fora, outra idade. - Meu irmão, disse o acompanhante.
E encetada uma conversa vulgar seguimos para a Rua Eugénio dos Santos. Entrámos no Restaurante. E ali, sentados a uma mesa junto da janela, enquanto se servia a refeição, António Soares foi evocando exumando do passado os seus contemporâneos, os companheiros de suas horas de apoteose de orgulho intelectual, os quais nas exposições eram presença certa como a efectuada no Palácio da Independência em 1947, e a do Secretariado Nacional da Informação em 1957 e em tantas outras. Dava ele às memorações que espontaneamente lhe acudiam, cintilhando nas palavras que expunham com o seu toque afectivo de saudade, as recordações dum pretérito mais próximo ou mais distante, mas sempre com o tom em que a sinceridade do vivido tinha o rigor dos cambiantes do espaço envolvente: e porque o tempo é inseparável do espaço falei-lhe de Salema Vaz, de seu livro de poesia, Pão do Exílio, «escrito que foi durante o desterro e seu caminho, na Ilha da Madeira, cidade do Funchal no ano de MCMXIX». O Pintor António Soares reflectiu uns segundos e disse: Bem sei, lembro-me perfeitamente, o desenho da capa é meu! Já lá vão tantos anos!

"Suavidade" - 1928
 
Salema Vaz esteva na Ilha da Madeira como oficial, quando da I Grande Guerra. Fui amigo dele. Era bom rapaz. E por associação de lembranças surgiu-me à memória um nome que não lhe devia ser desconhecido: Correia da Costa que foi jornalista e escritor. Era inteligente, afirmou, mas que era de temperamento blasé como o de muitos lisboetas.
Depois deste encontro, uma tarde, também de Outubro cinzento, o Pintor recebeu-nos em sua casa. Morava na Rua de Santo António dos Capuchos. Era uma casa antiga, do tempo em que Lisboa seria uma cidade de ambientes de sugestões para Cesário Verde. Entra-se por vetusto portão para um pátio, e escadas nos conduzem aos interiores desta casa solarenga. Salas espaçosas sucediam-se umas às outras. Em uma delas ficava a riquíssima biblioteca. Aquele estilo nobre condizia com o casal que o habitava, no silêncio de claustro: António Soares e sua mulher, senhora mui distinta.
Em sua oficina deslumbra um formoso retrato da Marquesa de Fronteira. Estou a vê-lo. E é tal o realismo da expressão que é pena que não fale. E numa atitude involuntária sentimos o desejo de nos determos, de não nos despegarmos do embevecimento, e deixando-nos permanecer, passivamente em êxtase, arroubamento absoluto. Bastaria o retrato da Marquesa de Fronteira para imortalizar o famoso Pintor.

"Retrato da Marquesa de Fronteira" - 1961
 
Mestre António Soares pertence a alguma escola? Ninguém pode fugir a uma herança. Qualquer que seja a arte á sempre uma herança. Toda a aprendizagem, implica um alicerce, um modelo um arquétipo. Eis porque Platão tinha a sua razão quando expõe a doutrina do mundo das ideias. Mestre António Soares tem raízes de cultura clássica, o que de modo algum significa que não tivesse participado do Movimento Modernista que conta com Henri Matisse como impulsor. Repudiava este as concepções clássicas dos ideais estéticos mas em seu modernismo existe alguma coisa de clássico. Ou então está errado o princípio da substancialidade que nos diz: «Toda a mudança possui algo de permanente». Mas se é certo que António Soares em Portugal compartiu do modernismo, a verdade é que ele é só ele, a sua arte desabrocha e expande-se após uma vida de trabalho isolada, semelhante à dos ascetas. Vivia para si, entregue à ânsia do mais perfeito. E conseguiu, em suas criações, a humana perfeição.
Absorvido inteiramente, obsessivamente, devotadamente à sua arte como os copistas na idade média aos originais, o pensamento tinha apenas um objectivo superior. Por isso não se perde na política. Não nascera político e sim nascera artista para as linhas e as cores. Eis um motivo forte por que António Soares foi grande na sua profissão. A sua Obra o imortalizou em Portugal e no estrangeiro.
Eu bem o conheci. Bem digo esse anoitecer de Outubro em que cadeias familiares me aproximaram de Mestre António Soares, cuja morte me sugeriu esta desataviada crónica.

Funchal, 15 de Outubro de 1978





Catálogo Digital (2) "OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES"

Continuemos, e entremos na primeira sala. Eis o aspecto geral:

Podemos ver duas paletas penduradas, na parede, e a pequena estante com os frascos




























































Nesta primeira sala, que designámos por "António Soares - o Artista e a Família", apresentámos alguns óleos e têmperas, apenas de retratos da família, auto-retratos, e desenhos dos primeiros anos.







Juntámos também objectos pessoais, o estirador, as paletas, os pincéis, a estante com os frascos de óleos e anilinas, tudo tal como veio do seu atelier, em Lisboa, na Rua de Santo António dos Capuchos - casa onde viveu desde os anos 40 e onde faleceu.

Vamos agora ver, mais de perto, estes desenhos. Comecemos por este desenho de 1921, "A hora do pecado", um original que foi publicado no Diário de Lisboa em Maio, na secção "A Cidade". É um desenho tão característico do traço de António Soares, que decidimos elegê-lo para ser a serigrafia comemorativa do evento - à venda na Loja da Fundação Escultor José Rodrigues.

"A hora do pecado" - 1921

A seguir temos alguns desenhos dos primeiros anos, a pastel, carvão, grafite, aguadas...


"A Sé e o Tejo" - 1914
Este pastel "Diálogo Sentimental" esteve exposto na 18ª e última exposição individual organizada pelo Mestre António Soares, em 1963, na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa.
 
 "Diálogo Sentimental" - 1921

"Dignidade na pobreza" - 1912
É possível que este desenho "Caricatura", tenha estado na 3ª. Exposição do Grupo de Humoristas Portugueses, em 1920.

"Caricatura" - 1915

"O meu casaco" - 1922

"Bicha da mercearia" - 1916

"O leme desconhecido" - 1912

"A janela do meu quarto" - 1912
Este desenho, que as "traças" adoraram rendilhá-lo, ganhou o 1º prémio de um concurso de cartazes, realizado em 1916 pela Société Amicale Portugale-France e orientado pelo pintor Leal da Câmara que viveu entre França e Portugal ao longo de vários anos. Esteve exposto na Exposição de Arte e Guerra organizada pela mesma entidade. A característica mais difícil do concurso era que os cartazes tinham de ser de formato quadrado.

"A Edade do Aço" - 1916
Este pastel que mais parece um "grafitti", foi um primeiro estudo para a capa da Revista "Ideia Nacional", precisamente quando Portugal decidiu enviar um contingente para a Grande Guerra. O desenho original que acabou por ser capa, não sabemos se ainda existe e onde se encontra, mas a capa foi a que apresentamos mais adiante, pois esteve exposta numa das mesas.

"Viva a Guerra!" - 1917
"António 915" - 1915 (auto-caricatura)

Antes de continuarmos, vamos fazer referência aos objectos expostos, que se podem ver com mais pormenor abaixo, nomeadamente o estirador e os objectos que se apresentavam à vista

António Soares era muito devoto do Santo do seu nome, pelo que tem uma colecção extensa de imagens do Santo de Lisboa. Optámos por trazer uma pequena estátua, de pedra, que era menos frágil para a exposição. 
Sobre o estirador colocámos um "Livro de Honras" onde convidámos os visitantes, ao longo dos 6 meses da exposição, a expressarem a sua opinião sobre a exposição, à saída.

Vamos terminar a ronda por esta primeira sala, com mais alguns quadros, desta vez são retratos dos irmãos e da mãe e três auto-retratos, incluindo um desenho do Santo António de Lisboa.

"Santo António de Lisboa" - 1920
"Auto-Retrato" - 1922










"Auto-retrato" . 1946
















"Retrato de Américo de Miranda Soares" - 1944



"Retrato de Madame António Soares" - 1930

"Retrato de Senhora - M.G.S. constipada" - 1944

"Judith, minha irmãzinha". 1918

"Irmã do autor" - 1932

"Auto-retrato" - 1928

"Retrato de Domingos Soares" - 1928

"Retrato de Américo Soares" - 1933

"Retrato de Américo Soares aos 5 anos" - 1932

"Retrato da Mãe do autor" - 1925

"Judite" - 1925
A sala termina com estas três magníficas sanguíneas, da Mãe e dos irmãos. Mas há uma outra faceta desconhecida do Mestre António Soares que resolvemos mostrar nesta exposição - a de fotógrafo. Embora o seu retrato não tenha obviamente sido tirada por ele, mas sim pela mulher, as duas outras fotos são realmente muito boas.

"António Soares" (1930)

"Américo aos quinze anos, a fazer aviõezinhos de balsa" (1942)

"A mulher, Maria Germana, a irmã, Judite e o irmão Américo" (1934)
Faltam agora as imagens do material que estava nas mesas. Ficará para outro post. Ficam apenas, para terminar, as imagens das duas mesas desta primeira sala.




21 de outubro de 2014

Filme da Exposição "OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES"

Este blog está a ficar um pouco mais "interactivo", com a inclusão de filmes:



Este pequeno filme foi realizado pela artista plástica Graça Martins, que graciosamente e com muita amizade resolveu colmatar uma falta que já se fazia sentir, nesta exposição. 
Com efeito, hoje em dia o filme é um instrumento essencial da comunicação, quanto mais não seja pela facilidade com que qualquer pessoa o pode fazer. Por isso, e na falta ou atraso na elaboração dos filmes mais institucionais previamente pensados, aqui vai uma imagem mais "objectiva"... Bem haja, Graça!

NOTA - A partir de agora, vamos começar a publicar, regularmente, imagens das obras que se encontram expostas, bem como imagens de outras obras "com história"...

2 de setembro de 2014

"OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES" Exposição comemorativa do 120º Aniversário de Nascimento do Mestre António Soares




Eis aqui o "Convite Digital" da Exposição

Olhares: os Estudos e os Desenhos de António Soares

Fica já a data, o local e a hora:

* no próximo dia 20 de Setembro de 2014, sábado, no Porto
* na Fundação Escultor José Rodrigues, na Rua da Fábrica Social
* pelas 16h00 - 4h da tarde

O Pintor António Soares nasceu a 18 de Setembro de 1894. 
A 18 de Setembro de 2014 (quinta-feira) haverá uma Romagem de Saudade ao túmulo, localizado no Cemitério do Calendário, em Vila Nova de Famalicão, pelas 17h00. Serão colocadas flores no túmulo*, onde também se encontra a sua mulher Maria Germana, e será realizada uma Missa de sufrágio na Igreja da Freguesia do Calendário. 

Esta exposição, nas galerias da Fundação Escultor José Rodrigues, estará aberta de segunda a sábado, com entrada livre, e estará durante seis meses à espera da sua visita...

Ao longo desse tempo, para além das visitas das Escolas, dado que a Fundação tem um Serviço Educativo que vai ser adaptado à exposição que está a decorrer, haverá palestras, exibição de filmes, visitas guiadas realizadas por diversos especialistas, Conservadores, Directores de Museus, Investigadores Universitários, estudiosos...

Também aqui, publicaremos os pequenos ou grandes acontecimentos que irão tendo lugar, e de todos eles se farão notícias, que engrossarão o Catálogo, que só ficará completo no dia do encerramento da Exposição, a 21 de Março de 2015!

Não deixem de nos visitar!

* da Família de José Alívio Madureira, avô da cunhada, Maria de Fátima

24 de agosto de 2014

Valores da Pintura Portuguesa - ANTÓNIO SOARES



     Dentre os novos que travaram a cruel batalha da arte, em Portugal, António Soares pode ser considerado um vencedor.
     E nada mais difícil do que vencer pela arte, entre nós.
     Falamos em batalha e o termo não é exagerado: batalha inglória, surda, em que se luta contra um inimigo covarde, que se esconde, que se esfuma na apatia do meio.
     Fazer arte num país onde os artistas são apenas tolerados, onde as exposições não conseguem sacudir a sonolência do público, indiferente, quase hostil, de um público que vive ainda a idade da oleografia barata, é travar uma batalha heróica em que só se mantêm aqueles para quem a arte é uma segunda essência da sua personalidade.
     Sendo um novo, quer pela sua mocidade quer pela sua técnica, António Soares tem já um passado brilhante a atestar o seu labor.
     A pintura de Soares, ultimamente galardoada com a Medalha de Oiro(a) do Salão da Primavera, oferece uma personalidade indiscutível.
     As telas de Soares são unidades sólidas, são valores independentes da escala que o artista traçou, numa visão firme da sua tarefa.
     À pintura de António Soares cabe uma missão, a de demonstrar com veemência, a personalidade, o querer do seu autor. É que Soares é um dos raros pintores, que não titubeiam, que sabem o que querem e ao que vêem.
     Pelo seu processo, pela sua "maneira", Soares sublinha curiosamente a intenção das suas telas, flagrantes, incisivas, modelares.
     A côr não é, para António Soares, a finalidade exibicionista dos que disfarçam a impotência criadora sob a abundância cromática, a côr é para António Soares, unicamente, a veste garbosa de uma intenção espiritual.
     As suas telas representam sempre audaciosas revelações anímicas, análises profundas da verdade que se esconde sob a forma; Soares é um dos raros artistas que compreendem os seus modelos, que travam com êles o diálogo curioso e apaixonado que se traduz na estilisação dum carácter ou duma personalidade.
     Os seus retratos, vivos, intencionais, cheios de observação psicológica, são já uma gloriosa galeria que por si só basta para firmar um nome de artista.
     Os retratados de António Soares vivem na tela a vida espiritual que ocultam, na vida real, sob a máscara apagada do hábito.
     Nas colunas do «A B C» encontrará sempre António Soares o apoio fiel dos seus camaradas de luta, que no terreno ingrato do papel impresso trabalham para o mesmo fim, e que acompanham carinhosamente a sua tarefa brilhante.
     A. C.
in «A B C», Maio de 1929

(a) Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), de 1929, onde António Soares havia ganho a Medalha de Oiro pelo seu "Retrato de uma bailarina - Natacha"

"MODERNOS ARTISTAS PORTUGUESES"


in REPÚBLICA, 17 de Maio de 1937

               Sob a direcção do crítico e poeta da moderna geração Artur Augusto começou a publicar-se uma obra, cuja falta muito se fazia sentir. Intitula-se "MODERNOS ARTISTAS PORTUGUESES" e é editada pelas Edições Momento, o que por si só é garantia de que se trata de uma obra graficamente digna do seu objectivo.

               O primeiro fascículo, da autoria de Artur Augusto, ocupa-se da personalidade artística do pintor António Soares, sem dúvida um dos mais dotados e de mais acentuada individualidade dos modernos plasticistas.

               Nesse ensaio, o crítico analisa as características da arte de António Soares, anota a sua evolução e a influência dos seus trabalhos noutros artistas mais novos. Completa o ensaio uma nota dos principais trabalhos decorativos daquele pintor e uma colecção de reproduções de alguns dos seus quadros, especialmente retratos.




O "Prémio Diário de Notícias" foi atribuído, este ano, ao Pintor António Soares



          O júri encarregado de atribuir o "Prémio Diário de Notícias", na importância de 30.000$00 resolveu, este ano, consagrar uma obra nacional de arte plástica referente aos dois últimos anos. O nome do escolhido, o grande pintor António Soares, foi ontem proclamado no decurso de um almoço realizado nesta Redacção.
          
          O prémio que tem sido concedido a escritores como Fidelino de Figueiredo, Mário Beirão e José Régio, já distinguiu também alguns valores actuais das artes plásticas, como o escultor Martins Correia, e o arquitecto Keil do Amaral. Este ano foi decidido galardoar um pintor. O nome de António Soares foi, em várias sessões do júri, o indicado, como já dissemos, para receber o prémio. 

          A obra e a figura de António Soares ocupam, com efeito, no panorama da vida cultural e social portuguesa do nosso século, um lugar de assinalado relevo. Personalidade inconfundível, alheia aos apelos e motivações das várias e efémeras correntes estéticas que se têm processado após o impressionismo, apenas com a consciência plena dos caminhos e perspectivas que se enquadram na morfologia do nosso tempo, logo ao despontar para o mundo das artes no ano quase longínquo de 1913, António Soares, ao lado de Almada Negreiros, Jorge Barradas, Stuart de Carvalhais, Canto da Maia, Cristiano Cruz e outros mais, conquistou tal posição que, dentro em breve, passou a ser considerado, tanto pela crítica como pela opinião pública, como uma das colunas mestras da pintura portuguesa contemporânea.

          Através de alguns milhares de trabalhos em pintura a óleo, desenho à pena, a lápis e a carvão guacho, com a discreta e emotiva elegância e originalidade que lhe foram sempre peculiares, interpretou, nos seus aspectos mais vivos e flagrantes, uma notabilíssima série de imagens, costumes e tradições e vivências que é muito difícil encontrar paralelo. Lisboa e Paris, principalmente ao serem evocados pelo seu traço vigoroso e livre, prodigioso de conjugações cromáticas, ressurgem, esplenderosamente, em suas requintadas intimidades e na plena pujança das suas fisionomias cheias de encanto e de surpresa. A graça, o enlevo, a sentimentalidade apurada e sóbria, constituem o seu permanente objectivo e diálogo. Como cenarista, arquitecto decorador de filmes e ilustrador de muitas dezenas de livros, evidenciou também os seus altos méritos. Em todas estas modalidades a sua aristocrática sensabilidade procurou sempre criar diferentes processos de realização formal e conceptual, circunscritos a um âmbito de civilização e bom gosto, à altura dos grandes padrões europeus.

          Independentemente da sua participação em numerosas exposições colectivas, já apresentou desde 1913, em Lisboa e no Porto, dezassete exposições individuais. A última efectuada em Dezembro do ano findo na capital do Norte, abrangeu um conjunto de trabalhos, pertencentes ao período da sua juventude, o qual veio realçar, além de outros predicados, a qualidade de extraordinária antecipação da maior parte dos rumos e tendências presentemente adoptadas.

          António Soares que está representado em Portugal nos Museus Nacional de Arte Contemporânea, Soares dos Reis, do Caramulo e José Malhoa, nos palácios Nacional de Queluz e da Assembleia Nacional, gabinetes dos presidentes do Conselho e da Câmara Corporativa e nos Paços Patriarcal de Lisboa e Ducal de Vila Viçosa, possui, também, inúmeras obras nas grandes colecções particulares do nosso país e do estrangeiro. Em 1937, juntamente com Picasso, Vlamick, Dufly, Van Dongen, Maurice Denis, E. Vuillard e Dunoyer de Segonzac, foi contemplado na Exposição Internacional de Paris com o "Grand Prix" de Pintura. Tomou também parte noutros importantes certames, nomeadamente, nas exposições internacionais de Vincennes e Artes e Técnicas de Paris, em 1929 e 1937 respectivamente; Feira Mundial de Nova York em 1939; no pavilhão de Portugal, com a pintura mural "Os Mareantes"e, convidado por Mr. Thomas Watson expôs o quadro intitulado "Portugal my Country", no Pavilhão das Ciências e das Artes; na primeira Bienal de S. Paulo e, em 1952, no Ateneu de Sevilha.

          A sua actividade plástica que já havia merecido artigos e ensaios da autoria de Júlio Dantas, Adriano de Gusmão, Alfredo Pimenta, Correia da Costa e Sousa Pinto, sempre que surgiu em terra estrangeira foi também longamente apreciada e nos termos mais honrosos, tanto para o artista, como também para Portugal.

          Desde longa data António Soares que ascendeu por seus amplos e afirmativos recursos à categoria de Mestre insígne da pintura do mundo do nosso tempo, tem sido distinguido por galardões da maior projecção e significado como: prémios Columbano em 1935 e 1948; várias Medalhas de Ouro em Desenho e Pintura nas expposições da Sociedade Nacional de Belas Artes, e Medalha de Honra da Grande Exposição Internacional de Nova York, em 1939. Foi condecorado pelo Governo Português com o oficialato de Santiago de Espada em 1958 e eleito, por unanimidade, em 1961, vogal da Academia Nacional de Belas Artes.

in DIÁRIO DE NOTÍCIAS, a 3 de Março de 1962

21 de agosto de 2014

Uma hora no Atelier de António Soares

Rio de Janeiro, 30 de Maio de 1931




Ora aqui tem, a minha amável leitora e o hirsuto crítico de café, o pintor António Soares em pantufas. Entremos devagarinho, porque o artista trabalha.
Não façamos bulha. Quanto aos paradoxos, às falsas ideias de requinte e à incoerência do que é costume chamar modernismo, é bom deixar tudo isso à porta, ao tocarmos a aldabra deste 4º andar da Rua do Salitre, onde António Soares pinta e medita.
É necessário fazer esta prevenção, porque o artista, em sua casa, é completamente diferente desse estridente figurino de ilustrador da moda, e pintor bizarro da frivolidade mundana.
António Soares na intimidade do seu “atelier” dá-nos a impressão de um anacoreta de côr. O seu “robe”, parece um hábito, e os pincéis, a paleta, e alguns volumes, sobre a antiguidade clássica, de mistura com os mais ousados ploblemas da investigação contemporânea, lembram-nos as peças necessárias ao ritual de um culto celebrado com a mais escrupulosa severidade.
Vive-se aqui, uma atmosfera de intensa cultura e recolhimento.
António Soares, fino observador de expressões, procura destruir esta impressão de austeridade e graciosamente, conta:
– Como está vendo, não estou num “atelier”. Aproveitei é certo, a luz desta sala, mas não foi a luz que me obrigou a trazer para aqui o cavalete.
– Então?
– Foi um aguaceiro. Chovia em casa como na rua. Esta sala foi vítima de uma inundação. Para salvar os móveis, mudei-os. A sala ficou deserta, e aqui tem a história da improvisação deste… “atelier”.
Rimos. Olho o quadro em que o artista está trabalhando e deixo escapar esta interrogação:
– Quem é esse doutor da Igreja, que você (está) tratando com tão justa elevação?
António Soares, sorri. Eu encaro mais o rosto da figura e reconheço, nela, num solene perfil, uma magnífica expressão de Camões. O cantor da Raça, está ali, fixado num esplendor de iluminação profética. Não é um poeta nem um soldado. É um guerreiro e um pensador, na hora da visão consciente da alta missão a cumprir, qual seja a de vislumbrar, apoiado numa robusta compleição poética, a manifestação da Eternidade, e captar esse belo segredo de modo a poder transmiti-lo como herança divina, aos altos destinos de uma Pátria.
Esta sugestão que se desprende do trabalho de António Soares, não é absolutamente incompatível com a sua fama de pintor mundano?
Parece que sim. No entanto António Soares, quando lhe coloco esta questão, responde deste modo:
– Na aparência, há um conflito de atitudes, mas em boa verdade, a variedade de aspectos é uma das mais belas manifestações da vida. O mundo frívolo, o mundo das aparências, quando bem visto, não é menos valioso do que as verdades superiores que incitam à austeridade. Além de tudo o mais é bom não esquecer que a frivolidade também tem os seus dramas…
– Uma arte que foge da reunião mundana?
– Exactamente…
«Eu sempre fui assim, como sou agora. Sempre tive as preocupações, que são agora mais evidentes na minha obra. Simplesmente o que houve, foi talvez o propósito de não revelar esse aspecto do meu querer e do meu sentir, por o não julgar com a suficiente energia de reflexão e de realização capaz de os exprimir. Esse trabalho, que está vendo, essa interpretação de Camões, trabalha-me na imaginação e tem ocupado as minhas horas mais intensas de estudo, há talvez 20 anos! Só agora pude levar a efeito, esse desejo. Tudo tem a sua hora…
– Chegou a hora da conversão?...
– A pergunta é bastante violenta. A uma questão indiscreta, responde-se com uma “blague”. A uma oportunidade iniludível de definir uma linha de conduta, só se pode retorquir, estremando campos. Foi a minha intenção arriscada.
«Quando principiou em mim, aquele conjunto de manifestações da sensibilidade, que nos conduzem à consciência do nosso temperamento artístico, encontrei resistências, bem entendido, resistência de ideias, não de pessoas. Naturalmente a minha reacção, tinha de se dar. No meu caso estavam também outros artistas. Não concordávamos com a orientação artística estabelecida e até posso avançar mais… Compreendi que os grandes mestres do Passado, não eram justamente compreendidos nas suas virtudes. Verifiquei que se tinha formado um conceito, chamado Escola, que não aceitava a espontânea florescência do espírito artístico, e o apertava em fórmulas, deformando-o como um pé, em bota apertada.
– Teoria da bota de elástico…
António Soares, inalterável prossegue:
– Eu era novo demais e insignificante, para tentar sozinho e sem exemplo, todo esse trabalho de rebeldia e insurgência.
«Ao mesmo tempo constatava, pelo livro e pelo jornal, que em França, Alemanha e outros países havia quem, agindo pela mesma ânsia, se dava com o maior entusiasmo à tarefa do renovamento.
«Aqui em Portugal, tanto como eu, existiam, e existem artistas, que pelo seu talento e qualidade de espírito, foram os meus caros companheiros de espírito dessas belas horas de luta.
«Claro está, que essas atitudes geram quase sempre um excesso de entusiasmo que muito prejudica a virtude principal dos primeiros impulsos criando a cegueira que acompanha todas as paixões de espírito.
«No caso a que me quero referir, chegaram ao delírio. Nesta manifestação de entusiasmo, eu já não poderia conviver.
«Eu tive sempre o entusiasmo lento no deflagrar, e o cuidado de reflectir.
«Confundiu-se a acção com a retórica. Por exemplo a célebre frase de Marinetti, afirmando a necessidade de queimar os museus foi tomada à letra.
«Não se viu que se tratava de uma exposição panfletária porque seria o próprio Marinetti, o primeiro a acudir ao museu, empregando uma violência de acção, se acaso soubesse que algum exaltado, procurava pôr em prática, tão louco intento.
«Seria muito capaz de deixar a sua conferência em meio.
– E deste modo deixou para trás o modernismo…
Era outra estocada, em busca de afirmações. António Soares, replica:
– Em nada esmoreceu em mim a minha grande simpatia pelos modernistas. O que deixei foi de concordar com toda a gente que se diz modernista.
– Mas abandonou a luta, diz-se.
– Não acha um deplorável absurdo empregar força contra uma coisa que já não oferece resistência?
– Qual é o seu processo predilecto de trabalho?
– Não tenho horário. Quando o impulso de realizar me impele para o cavalete, não tenho horas nem para comer. Todo o trabalho me agrada. Em todas as manifestações da minha arte realizo o meu objectivo: levar a minha arte a todos os aspectos da vida, e dar batalha em todos os campos.
«Fiz e faço “décor” para teatro, porque sendo afinal uma preocupação de grandes mestres da pintura, nunca deixo de aparecer onde quer que se passe uma questão artística.
«No nosso país, creio que a atitude dos pintores, fazendo decor, salva o teatro e o público de grandes monstruosidades. Sob o pretexto de fazer arte ligeira, a decoração teatral, presta-se a elevados objectivos pois habitua-se o público assim a conhecer os nossos costumes e a nossa paisagem, fazendo assim uma educação pictoral.
– Um desabafo:
– Essa tarefa não é fácil. A efectuação destas coisas simples, tem-me custado os maiores sacrifícios da minha vida.
«Talvez assim não acontecesse se tivesse optado pela fantasia aliciante da beleza boulevardeira dos teatros de Paris. Talvez fosse melhor entendido…

Cuidado, vamos saír…
António Soares já não está em pantufas.

Eduardo Frias

in JORNAL PORTUGUÊS
redactor, GASTÃO DE BETTENCOURT