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20 de novembro de 2015

Catálogo Digital (3) "OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES"

Continuando com o nosso Catálogo Digital. Vamos ver primeiramente a mesa com algumas publicações, nomeadamente a capa da "Ideia Nacional" de Homem-Cristo filho.

Capa de António Soares
Duas capas de António Soares para dois livros do seu amigo António Ferro, amigo da juventude, que a política fez separar...









António Soares - autor do cabeçalho do "ABC A RIR" - 1920




"Vogue - estudo" - 1930



"A Herança das Bacalhoas" - 1915


  




"Esboço de retrato" - 1934

"Cabeça cubista" - 1922

"Capa para Catálogo de Exposição António Soares - estudo" - 1922
Nesta mesa tínhamos ainda uma cópia de um dos livros de Inventário da obra de António Soares, iniciado por seu irmão no início dos anos 80, pouco depois da sua morte, bem como uma ficha.

Passando para a segunda mesa, que continha fundamentalmente objectos pessoais, e fotografias.

"Retrato de Madame Veiga Simões" - 1921

As fotos da Mãe e do Pai, dele e da futura mulher, uma foto do casamento que foi realizado em casa da Mãe da noiva. E depois objectos pessoais: os óculos, os isqueiros e cinzeiros (tendo sido António Soares um fumador inveterado, o que era comum na época), um óculo de ourives (recordação da sua passagem como aprendiz, onde descobre a sua paixão pelo desenho e a pintura), uma foto do casal cerca de 1973, onde conseguimos apreender um certo ar de cumplicidade e carinho entre os dois...



Vamos deixar ainda aqui algumas imagens da sessão de inauguração, com um agradecimento a todos os amigos que conseguiram estar presentes connosco, nesse dia.





Um agradecimento muito especial ao Mestre José Rodrigues e Lindinha, pelo carinho com que nos receberam na sua "Catedral" de cultura que é a Fundação!





21 de outubro de 2014

Filme da Exposição "OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES"

Este blog está a ficar um pouco mais "interactivo", com a inclusão de filmes:



Este pequeno filme foi realizado pela artista plástica Graça Martins, que graciosamente e com muita amizade resolveu colmatar uma falta que já se fazia sentir, nesta exposição. 
Com efeito, hoje em dia o filme é um instrumento essencial da comunicação, quanto mais não seja pela facilidade com que qualquer pessoa o pode fazer. Por isso, e na falta ou atraso na elaboração dos filmes mais institucionais previamente pensados, aqui vai uma imagem mais "objectiva"... Bem haja, Graça!

NOTA - A partir de agora, vamos começar a publicar, regularmente, imagens das obras que se encontram expostas, bem como imagens de outras obras "com história"...

2 de setembro de 2014

"OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES" Exposição comemorativa do 120º Aniversário de Nascimento do Mestre António Soares




Eis aqui o "Convite Digital" da Exposição

Olhares: os Estudos e os Desenhos de António Soares

Fica já a data, o local e a hora:

* no próximo dia 20 de Setembro de 2014, sábado, no Porto
* na Fundação Escultor José Rodrigues, na Rua da Fábrica Social
* pelas 16h00 - 4h da tarde

O Pintor António Soares nasceu a 18 de Setembro de 1894. 
A 18 de Setembro de 2014 (quinta-feira) haverá uma Romagem de Saudade ao túmulo, localizado no Cemitério do Calendário, em Vila Nova de Famalicão, pelas 17h00. Serão colocadas flores no túmulo*, onde também se encontra a sua mulher Maria Germana, e será realizada uma Missa de sufrágio na Igreja da Freguesia do Calendário. 

Esta exposição, nas galerias da Fundação Escultor José Rodrigues, estará aberta de segunda a sábado, com entrada livre, e estará durante seis meses à espera da sua visita...

Ao longo desse tempo, para além das visitas das Escolas, dado que a Fundação tem um Serviço Educativo que vai ser adaptado à exposição que está a decorrer, haverá palestras, exibição de filmes, visitas guiadas realizadas por diversos especialistas, Conservadores, Directores de Museus, Investigadores Universitários, estudiosos...

Também aqui, publicaremos os pequenos ou grandes acontecimentos que irão tendo lugar, e de todos eles se farão notícias, que engrossarão o Catálogo, que só ficará completo no dia do encerramento da Exposição, a 21 de Março de 2015!

Não deixem de nos visitar!

* da Família de José Alívio Madureira, avô da cunhada, Maria de Fátima

21 de agosto de 2014

A Exposição António Soares




Se eu quizesse comprometter certos meninos-prodigios que ja tocam o cavaquinho da critica de Arte nas gazetas encyclopedicas da nossa terra, perguntar-lhes-hia, deante da bisbilhoteira familia portuguesa, se elles teem a noção, mesmo superficial, da differença que existe entre fazer pintura e alinhar adjectivos. Só o desconhecimento impávido do padre-nosso da pintura, pode explicar a desfaçatez com que elles se apresentam em publico, com as cuecas da intelligencia desapertadas, a fazer batuque de phrases repenicadas sobre tonalidades que não percebem, sobre processos que não existem e sobre pintores que não comprehendem.
Não leio nunca meia columna de prosa d’esses criticos de talagarça, incansaveis bordadores de adjectivos de missanga, sem me lembrar, com uma certa piedade, dos incansaveis limpa-calhas dos electricos. Com effeito, a vida dos primeiros tem uma caprichosa parecença com a dos segundos. É a mesma monotonia no giro quotidiano, o mesmo cuidado no exame das curvas, o mesmo culto pelas coisas superficiaes, o mesmo desejo de não correr para não ser atropelado pela Civilisação… De maneira que, quando em Portugal um d’esses raros artistas que não jogam o dominó ao fazer pintura expõe os seus trabalhos mais recentes, é um regabofe para os fornecedores de critica de Arte a domicilio.
N’esse dia, o armário dos logares-comuns, lavados e passados a ferro, é remechido de lez-a-lez. Verdadeiros satyros, os taes senhores apropriam-se inclusivamente das peças mais intimas do volabulario do Sr. Julio Dantas. Põem brilhantina nos substantivos, pomada amor nos adjectivos, um pouco de rouge nos adverbios de modo e pasta Couraça nos dentes das reticencias… E depois, muito satisfeitos, deitam tudo em cima de um papel, misturam, confundem, desarranjam e atiram-nos com a sua obra á cara, provocadoramente, orgulhosamente, como se atirassem com pedras preciosas.
A final, tudo aquilo brilha, á força de pomadas, mas toda a gente vê n’um apice, que não passa de pechisbeque e do mais ordinário…
 *  *  *
Vem isto a proposito do sapateado estrambotico que certos bailarinos da critica fizeram em volta da exposição do pintor Sr. Antonio Soares. Affeitos ao Nº.1 (Natureza Morta) e ao Nº.7 (Mulher da fava rica) das exposições do costume; tendo a retina magnetisada pela doçura de pastel de nata que ornamenta a paleta dos pintores officiaes – esses cavalheiros julgam-se obrigados a fingir que advinham, que percebem, que sentem a Arte moderna em todas as suas manifestações multiformes e labyrinticas. E zás! não estão com cerimonias. Enfiam um par de castanholas na caneta e põem as palavras a dansar jotas e sevilhanas a propósito da technica do pintor, da psychologia dos seus modelos, da dimensão dos seus quadros e até das meias tintas que elle usa…
Emquanto em Portugal não estiver estabelecido por lei que não basta possuir um bilhete de livre transito da policia para se ter o direito de fazer critica d’arte, o publico não saberá quais são, entre nós, os artistas verdadeiramente dotados. Ninguém lh’o diz nas gazetas – com sinceridade e com convicção. Pois será, por acaso, elucidar o publico chamar a um pintor que não sahiu de Rilhafoles, que não é estrábico, que não toma cocaína, que aborrece o absinto, esta coisa tremenda – sensibilidade mórbida? Pois não será uma palhaçada, d’essas que fazem rir pacóvios, chamar ao lápis preto, vulgar, Faber nº.2, de um desenhista – lápis côr de rosa? Pois será, por ventura, fazer critica encher uma columna de jornal com pontos, virgulas, pontos e virgulas e palavrinhas como estas – pinceladas multicores, manchas admiráveis de intenção, assombrosa correcção de traço?
O Sr. Antonio Soares é a victima mais recente das pachouchadas da critica. Treinado no desenho desenha. Pintor por temperamento pinta. A razão fundamental da sua arte é isto e não tem nada de mysterioso. Porque lhe attribuem os críticos ademanes de fakir? Porque deslustram a sua arte tão limpida, considerando litteraria a sua pintura? Porque veem intenções perversas, nervos excitados, caprichos de visão, détraquement, onde existe simplesmente raciocinio, observação, alma, intelligencia e métier? Porque se perturbam com as côres esbatidas nos quadros, se ellas nem são estranhas nem abomináveis se são, de facto, as côres exigidas pelo décor imaginado e vivido pelo artista? Porque veem complexidade e malabarismo onde ha unicamente verdade e belleza?
Como o impudor vai corrompendo todas as camadas da sociedade portugueza! Como ha de ser difícil rehabilitar uma nacionalidade atropelada, dia a dia, na sua vida intellectiva e moral, por essas manadas de bucephalos traiçoeiros que p’ra’hi estadeiam a sua influencia! Elles intromettem-se na politica, elles dominam na litteratura, elles pontificam na critica de arte, sobranceiros, petulantes, apparatosos e… tremendamente inconscientes. Tremendamente inconscientes, repito. Porque, se o não fossem, restringiriam a sua acção, saberiam disfarçar a sua ignorancia, tentariam tornar menos offensivo do senso-commum o seu culto ruidoso da banalidade. Mas ninguém tem já força para os suster na sua marcha desenfreada. E elles seguem, seguem por’hi fóra, espezinhando concepções d’arte, amachucando ideias de belleza, cortando cerce as expansões mais rutilas da vida moderna – verdadeiros barbaros na exhibição do seu encyclopedismo asnatico que só um paiz lymphatico como o nosso pode auctorisar e fortalecer…
*  *  *
A exposição de pintura de Antonio Soares, compunha-se d’um certo numero de quadros, que não contei. Os jornaes foram, porém, d’uma unanimidade generosa na fixação do numero – 30. Nem 29, nem 31. Trinta. Quando entrei na sala da Exposição olhei os quadros em conjuncto. Fiquei encantado, humanamente encantado, sem que a minha sensibilidade, apesar de bastante flexível, soffresse nenhum arrepio. Décor luminoso, levemente garrido, originando uma atmosphera translucida e suave que me deixou o espirito n’um á vontade pouco frequente. Silhuetas desencontradas, d’um colorido hipnotico, attrahentes, com movimento, desafiando altivamente a luz. Linhas ondulantes, sensuaes, femininas, aqui, acolá, mais além, multiplices, desembaraçadas e definitivas. Vida. Vibração. Claridade. Nada de mysterioso nem de satanico…
Foi isto que vi n’um relance, a distancia.
Ao abeirar-me dos quadros, a minha primeira impressão não soffreu quebranto. Desconheço o ritual da louvaminha. Tenho, portanto, o direito de escrever que não vi nada de grandioso nem de immortal. O sr. Antonio Soares não possue, felizmente, a mania das grandezas. E também não tem a velleidade de suppôr que a sua obra actual é definitiva e intangível. O traço mais nítido da sua personalidade de artista é o seu desejo de ineditismo. A sua pintura não crystallisou. A procura de tonalidades lucidas e vibrantes é continua. Inferioridade? Bizarrismo? Inexperiência? O contrario d’isto tudo. Pintar é dynamisar. Tudo tem expressão. Tudo tem, por conseguinte, movimento, mesmo o que parece incorpóreo. O verdadeiro artista vive para a recherche d’esse movimento, tem a ambição de surpreender o imponderavel.
Os críticos ignaros não perceberam esta ambição em nenhum dos trabalhos do sr. Antonio Soares. Pois ella é bem transparente! E também não presentiram que estavam em presença de um artista invulgarmente intelligente e dotado de um excepcional temperamento de pintor. Basta vêr o equilibrio perfeito das suas composições para se comprehender que o artista não as improvisou, como um tocador de fado. Ha alli consciência, intenção e recursos technicos. Ha principalmente intenção. E isto, para mim, é fundamental. Um artista que sabe o que quer, embora o não realise completamente, é sempre um valor positivo. Mais cedo ou mais tarde – na hora propria  o seu triumpho é certo e só poderá surprehender os que julgam que a pintura, mesmo a de coisas fúteis, é uma futilidade.
*  *  *
Uma das coisas mais irritantes para os críticos foi o sr. Antonio Soares ter exposto unicamente cabeças de mulheres. D’esse facto naturalíssimo, inferiram esses senhores que o sr. Antonio Soares preferira o mais fácil, quando a verdade é que elle escolheu o mais dificil. Dar expressão a uma physionomia, vibratilisar uma figura, vivificar um modelo até o ponto de o vermos em relevo dentro do encadrement, não é trabalho que permitta sortes de prestidigitação na technica. Depois, existe ainda esta difficuldade tremenda: fixar, sem exaggero de detalhes, o intimo, a psycologia, a sombra moral e pathologica do personagem e de forma que o seu exame permitta inclusivamente, mais tarde, entrever as características da sua epocha.
Quando um artista consciente se abalança a trabalhos d’estas exigencias, em vez de realisar o mais fácil (que é sempre o mais vistoso e o mais artificial) merece encómios e não diatribes. O Sr. Antonio Soares obteve o que não merecia. Até lhe chamaram com proposito deprimente – pintor de mundanidades. E acrescentaram solemnemente que ele possue uma sensibilidade morbida e que a sua pintura é sensual e perversa. Onde? Como? Porquê? Não é a pintura que é sensual e perversa é a mulher, as mulheres que serviram de modelo ao Sr. Antonio Soares. Mas de quem é a culpa? As mulheres que elle pintou são assim, aparte a estylisação que acompanha, inevitavelmente, a imaginação do artista criador de ambientes picturaes. E essa estylisação, que não implica com a verdade, junta com a intenção decorativa, constitue uma das notas mais originaes da pintura do Sr. Antonio Soares.
VICTOR FALCÃO

in Contemporanea nº.7 1923 


NOTA: o texto deste artigo está grafado tal qual aparece no texto original, de 1923; a exposição referenciada é a 3ª. Exposição Individual, que teve lugar na Casa Araújo & Bastos, inaugurada na última semana de Dezembro de 1922, que esteve patente até aos primeiros dias de Janeiro de 1923




19 de agosto de 2014

António Soares, um pintor excepcional

por Manuela de Azevedo

António Soares mergulhou as raízes da sua arte no mais puro da forma e da criação clássica para aflorar da terra na mais bela, sádia e estonteante expressão da pintura moderna. O artista despiu os ouropéis do academismo decadente e ergueu-se, puríssimo de forma e côr, acima de tudo o que entre nós constitue conceito de arte. Na verdade, que suave, que reconfortante, que extraordinário banho de beleza se toma, visitando a mais notável exposição de pintura a que Lisboa tem assistido nos últimos anos…

Mesmo quando é pagão – é ungido de um misterioso sôpro de sentimento bíblico. Às vezes as suas têmperas são pastorais melodiosas. Outras vezes, porém, lembram bocadinhos de brasa viva, satânica, arrancados a corpos coleantes ou às almas de fogo de vidas transviadas do caminho do amor sagrado…

Quando se entra no primeiro salão da exposição, ali à Rua Ivens, na Casa Jalco, o interiorismo da pintura como se fecha ainda mais. É preciso por os olhos em cada um dos quadros, porque nêles não há as cores gritantes do empastelado dos óleos, mas a suavidade austera – mesmo quando é fresca e primaveril – das têmperas inconfundíveis… de António Soares.

Que coisas maravilhosas é possível criar com um sépia quente, um rosa suave e um verde sêco de combinações secretas!...

António Soares é hoje o nosso primeiro artista de têmpera: pela segurança do desenho, pela voluptuosidade quási inconsciente das formas e o bom gosto das combinações de cores. E, não só por isso – e nem só na têmpera – António Soares se pode comparar a si próprio: é simplesmente pela frescura e expontaneidade dos seus têmas. Há dias, visitando as Belas Artes, dissemos uma heresia de que queremos penitenciar-nos: a arte de pintar não está em crise. Os artistas é que o estão – diremos agora, ao deixar saudosamente desprenderem-se os olhos do último quadro de António Soares. Os têmas não estão batidos nem banalizados – há muito de extraordinário a colher da natureza como sugestão artística. António Soares assim o prova na escolha dos assuntos em que nem uma só vez se repete, banaliza ou amesquinha. A têmpera, como o fresco, é a arte dos mestres por excelência, aquela que não consente a hesitação nem o engano. E António Soares dando-nos os seus quadros, é muitas vezes mestre.

Que admirar mais na pureza desta obra, feita por um homem excepcional do nosso século – e desde já queremos dizer que Êste artista é “aquilo” que procurávamos em pintura – com seu respeito pela forma, dentro de um processo absolutamente moderno, quer pela técnica, quer pela interpretação da vida e dos homens?

Das suas paisagens ressuma um “sombre” aveludado, de tufos voluptuosos, como das velhas e magníficas tapeçarias da (ilegível); as suas figuras têm coisa de rácico sem etnografia. E mesmo quando são os nossos homens do campo ou lavadeiras – dir-se-ia que não pertencem ao nosso meio, que são faunos ou ninfas de bosques maravilhosos, tão outros, na sua superioridade, são os olhos do artista que os viram e os transmitiram à tela, em cromáticas criações do seu espírito.

“Composição” dá-nos, efectivamente, êsse vislumbre de paragens edénicas dos quadros da Renascença florentina, e a “Rapariga das Maçãs”, como “Vindimadora” ou o “Corpete Vermelho”, riquíssima policromia feita de pedrarias, servem apenas para ilustrar, como evocação, uma opinião que há-de ser unânime – para prestígio e boa reputação do nome da nossa gente.


Corpete Vermelho - 1944

Entretanto, António Soares não vai só à natureza e às coisas materiais buscar sugestões para os assuntos dos seus quadros. Porque tem sensibilidade, técnica e espírito criador, a música serviu-lhe um grande, um excelente têma: Dukas no “Aprendiz de Feiticeiro”, teve em António Soares um grande intérprete sem instrumentos musicais nem influências de Disney.

Dizem-nos que os quadros deste grande artista – e grande em qualquer parte, como o consideraram em Paris – têm obtido uma alta consideração do público que pode animar as artes. Ainda bem! Ainda bem – não por António Soares, já o dissemos, mas por êle próprio, o público que demonstra assim ser acessível à penetração da arte de António Soares – uma arte que não tem comparação e é só igual ao espírito de quem a cria…


in "Vida Mundial Ilustrada", 1944


1 de setembro de 2013

Inventário ou Catálogo Raisonné... da obra do Mestre António Soares

Já aqui tenho feito referência, em vários notícias, ao "Inventário"... E o que é o "Inventário"? Normalmente também se pode utilizar a palavra mais internacional, francesa, "Raisonné", que significa sensivelmente o mesmo, que é a listagem detalhada, com várias entradas e referências bem como com reproduções (ou não), da obra de um artista plástico, ou de um grupo de artistas, por exemplo.

Normalmente os artistas são... "artistas", isto é, temos na ideia que são pessoas um pouco alheadas dos aspectos práticos e mais "comesinhos" do dia-a-dia. Algumas vezes esta imagem é exactamente verdadeira e correcta, e designa na maior parte das vezes, muitos dos "artistas" que se tornaram mais conhecidos mundialmente. Assim como artistas menos conhecidos. 

Aliás até há "artistas"... sem obra... os "verdadeiros artistas"...

Mas nem sempre tem de ser, ou é, assim. Posso dar um exemplo maisto recente, por exemplo do artista austríaco, Friedensreich Hundertwasser, que faleceu há poucos anos, que até nem ligava muito ao facto de ter ou não dinheiro para comer ou se vestir, mas que foi um dos primeiros verdadeiros Ecologistas! Porém tinha sempre o maior cuidado na numeração e contabilização de todas as suas obras de arte, quer fossem serigrafias, que conseguia tornar únicas cada uma das unidades de várias séries, quer os seus magníficos quadros, quer painéis de azulejos - temos o privilégio (todos os cidadãos) de poder admirar um magnífico painel no Metropolitano da Gare do Oriente - quer projectos de arquitectura...

Vem esta referência a propósito da obra do Mestre António Soares. Efectivamente, desde a sua morte há trinta e cinco anos, tem vindo o seu irmão, Américo Soares, a elaborar o "Inventário" ou "Raisonné" de toda a obra, a partir de Catálogos das exposições Individuais e Colectivas, das reproduções (fotos) a partir do advento da fotografia, mas principalmente a partir de um instrumento precioso e inusitado (tendo em conta a "definição de artista" acima): das suas agendas.

Efectivamente o Mestre António Soares, que para além da sua paixão pela pintura, não teve Pai rico que o sustentasse e teve de viver do seu trabalho, tornou-se (por temperamente ou por necessidade) numa pessoa muito organizada que registava toda a sua vida em agendas que, felizmente, nunca deitou fora! A cada dia, em agendas grandes, de tamanho aproximado a folhas "A4", registava todas as saídas e entradas de dinheiro, desde o pão, os sapatos que tinham ido ao sapateiro, a conta paga ao talhante ou... "o quadro xxxxx vendido por $$$$$ ao Sr. Fulano". (verdadeiramente a "inveja" de qualquer investigador)...

Mas não foi só isso o espólio do grande artista. Tinha também o cuidado desde muito jovem, de guardar todas as referências às exposições, os artigos de jornal, as críticas, e... imensa correspondência!

Correspondência de amigos, de colegas, de coleccionadores, desde 1912 e anteriores... Há postais e cartas que, sem códigos postais iam ter às mãos do destinatário: cartas dirigidas "Ao Pintor António Soares, Café A Brasileira do Chiado, Lisboa". (testemunhos fantásticos!...)

Depois da Biografia completa, está na nossa ideia a publicação de "Correspondência", e em função da oportunidade, ou do interesse que possa vir a ser demonstrado, mais publicações relativas a grupos de obras ou a épocas, a tipos de actividade - está em estudo, por parte do Museu Nacional do Teatro, a elaboração de um Raisonné da obra do Mestre António Soares em tudo o que ao Teatro diz respeito, onde ele trabalhou durante muitos anos.

Mas mais recentemente, através da Internet, também me tem sido possível recuperar imagens de obras das quais não tinhamos referências ou imagens, pelo que o "Inventário" está sempre a ser actualizado.

Bom seria que os proprietários de colecções particulares nos contactassem a fim de podermos actualizar as imagens das obras que possuem. Também para efeitos de autenticação de obras, neste momento, a Família do Mestre António Soares, é a entidade mais idónea e credível de autenticação de obras de António Soares!

Vamos continuar a trabalhar nesse sentido, de descobrir e dar a conhecer onde se podem encontrar, em locais públicos, obras deste grande pintor do século XX.


8 de fevereiro de 2013

António Soares traz à pintura portuguesa uma expressão nova de beleza

por Artur Portela

Valeu a pena este silêncio de catorze anos! Dir-se-ia que o talento de António Soares no isolamento, na ascese e até mesmo na contradição, atingiu a plenitude criadora. Durante esse tempo, o artista como que requintou a sua maneira, descobrindo novas refulgências de beleza, novos acordes de tonalidades, novas expressões de beleza. Esta sua exposição (9ª exposição individual), seja qual fôr o prisma crítico, é um notável acontecimento artístico.

António Soares como que criou o seu mundo, numa síntese admirável de formas e de côres. Através da sua sensibilidade, tão finamente espiritual, que sabe converter a realidade em sonho, António Soares alarga, de certa maneira, as fronteiras da escola estética em que nasceu, para lhe dar uma realidade eloquente. Por outras palavras mais simples: todas as experiências, aquisições, e "recherches" do modernismo, decantados pela sua maneira, traduzem-se em extraordinários conceitos plásticos, de serenidade ideal, que acusam ou vibram, com o toque maravilhoso da obra prima. Evidentemente que nem todos os seus quadros apresentados são dum significado igual. Mas a maior parte, a grande parte, devemo-la considerar indiscutível.

António Soares é um complexo bizarro e rico de valores. A sua pintura, tão aliciante, tanto nos evoca a graciosidade "mievre" dos grandes artistas do século XVIII - e, nomeadamente, dum Watteau estilizado, como as extraordinárias sugestões de côr, dos cenários dos bailarinos russos, quando Nijinsky dançava pelo mundo. Esta galeria é, sobretudo, uma alta manifestação de pura espiritualidade. Um grande músico pintaria como Soares, convertendo as notas em magias cromáticas. As suas mulheres têm a aristocracia, a raça, a elegância, a finura e a distinção dos tipos excelsos que abrem novos paradigmas à beleza. Dentro daquela maneira que revela uma personalidade, é impossível fazer-se melhor. António Soares como que se resgata da sua misantropia, obtendo uma vitória clamorosa e definitiva. Supomos que o artista não pinta sobre tela, mas num pano especial, ligeiramente, tinto, cuja superfície suave, macia, dá mais fluidez aos pincéis e funde melhor os valores da paleta. Havia que elogiar muito, quasi tudo, desde a "Natacha", que define um singular tipo de mulher de olhos errantes e nostálgicos, até as suas naturezas mortas, tocadas com subtil preciosidade. O "Camarim" é uma autêntica maravilha, ante a qual os olhos ficam tontos de assombro, de emoção. É, simplesmente, lindo, aquele "boudoir" em que a figura tem alguma coisa de floral. "Bailado Romântico" é duma extraordinária, duma enfeitiçada magia de tinta. As duas figuras, entre rompimentos de luz sobria e surda, traçam uma admirável parábola. "Composição" é outra obra a destacar. António Soares transpôs, se não renovou, a técnica dos Gobelins, mas pintor sempre, deu-lhe uma expressão de suprema elegância decorativa. "Vindimadora", "Alto Longo", "Entre Bastidores", "Atrás do Rompimento" são, entre outros, obras que fixam a perfeição que António Soares atingiu.

Um grande pintor e uma grande obra. Estamos certos de que, no salão da Rua Ivens, Lisboa teve, ocasionalmente, uma verdadeira sala de museu.

in DIÁRIO DE LISBOA, 1944








23 de janeiro de 2013

17ª Exposição Individual - Galeria da Academia Dominguez Alvarez, Porto - 1961

“O ensino de gravura-artística na Academia Dominguez Alvarez e a abertura da Exposição de desenhos e pinturas de Mestre António Soares”

Novembro de 1961

A Academia Dominguez Alvarez iniciou a nova temporada de actividades, com dois acontecimentos de vulto para o meio artístico portuense. Um, foi a inauguração da oficina-livre de gravura artística, dirigida pelo pintor D’Assunção, e que já está a ser frequentada por vários “alunos”, entre os quais alguns da Escola de Belas Artes; outro, a abertura da exposição de desenhos e pinturas de Mestre António Soares, que juntou na Academia Dominguez Alvarez dezenas de intelectuais tanto das letras como da Poesia e das Artes Plásticas. Companheiro de Jorge Barradas, Almada Negreiros, Canto da Maia, Christiano Cruz, Mário Eloy e Eduardo Viana, o Mestre António Soares é, presentemente, um dos mais representativos valores portugueses, estando representado em museus e pinacotecas particulares de Portugal e do estrangeiro, bem como no Gabinete da Presidência do Conselho no Palácio da Assembleia Nacional, nos Paços dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa, no Patriarcado de Lisboa e na Capela do Cristo-Rei do Seminário dos Olivais, sendo detentor do “Grand-Prix” de Paris, da “Medalha de Honra” da Feira Internacional de New York, primeiras medalhas de desenho e pintura da S. N. de Belas Artes e do “Prémio Columbano”. O Governo Português distinguiu-o também com a "Ordem de Santiago e Espada”.

No acto inaugural da Exposição de António Soares, o pintor Jaime Isidoro saudou o ilustre Mestre, dizendo:

Se a hora a que nos reunimos para inaugurar esta exposição me obriga, de facto, a dizer “boa-tarde”, a qualidade, a frescura, a permanente juventude, aliciante e comunicativa, da obra exposta, que sugere perfumada e luminosa manhã de eterna Primavera, leva-me a esquecer a posição dos ponteiros no relógio que regula o tempo e orienta a vida, impondo-me este desabafo sincero, saído do fundo da alma:

- “Boa-tarde!”, Senhoras e Senhores.

- “Bom-dia!” Querido Mestre.

As pessoas aqui presentes, que representam muitos e dos bons admiradores da Arte como esta, com características de uma singular e nobre expressão, vieram à Academia Dominguez Alvarez para levarem os olhos e o espírito com tão sublime atmosfera; com esta pequena parcela de trabalhos do Mestre António Soares, constituída, no quase todo, por estudos e desenhos preparatórios de algumas das suas obras que nos falam alto e claro do sonho do Artista – sonho de meio século, suave e puro, sem sombra de pesadelos a perturbar-lhe a ascensão gloriosa no panorama da Arte.

É para essa ascensão gloriosa, reconhecida pelos valores responsáveis dos meios artísticos de Portugal e do estrangeiro; é para essa ascensão gloriosa que os júris nacionais e internacionais têm distinguido com altos galardões, que a Academia Dominguez Alvares, convencida que presta um serviço à cultura, pretende chamar a atenção do público nortenho, esperando que ele desfile por estas salas com interesse e carinhosa devoção, prestando assim, com a sua presença consciente, mais uma e sempre merecida homenagem a quem, como o Mestre António Soares, tem sabido servir a Arte com verdadeiro amor, dando-lhe vida, dando-lhe espírito e dando-lhe alma com inspirado carinho e com um certo, requintado e poético sentido criador.

Ao saudar o ilustre Artista que acedeu ao meu convite, e ao agradecer a presença de quantos quiseram dar o seu apoio moral, vindo, como visitante, à Academia Dominguez Alvarez, eu quero terminar conforme principiei:

- “Boa-tarde!”, Senhoras e Senhores.

- “Bom-dia!”, - Querido Mestre.




Por sua vez, o Mestre António Soares usou da palavra para fazer oportunas e judiciosas considerações, sublinhando:

São de reconhecido agradecimento a Jaime Isidoro, Director da Galeria Dominguez Alvarez, as primeiras palavras que tenho a honra e o grato prazer de dirigir aos visitantes da minha décima-sétima exposição, por tanta gentileza e cativante interesse em efectivá-la na sempre bem acolhedora capital do Norte. Como longínquo romeiro da fé na amizade e nos fastos da beleza evocadora, é sempre com emoção que venho avivar aqui, o sentimento de fraternal convívio à lareira nortenha, ao secular granito da invicta muralha da fundação e também à singela esteira de lages das ruelas e escadarias da ribeira do velho burgo. Foi com efusivo entusiasmo que aceitei o convite de Jaime Isidoro, e alvoroçado agrupei o conjunto de trabalhos que ora vos apresento e tanto diligenciei, embora resumidamente, significar o largo adágio de quarenta e seis anos de actividade artística, o que equivale a dizer-vos… de sonho.
 

Publicado em “Jornal Feminino” – Secção A Mulher

 
Das palavras acima transcritas, saliento um facto extremamente interessante, a nível psicológico e sociológico: quando António Soares, em 1961, com 67 anos de idade se refere a “quarenta e seis anos de actividade artística”, é fácil fazer as contas e chegar à conclusão de que ele se considerava um profissional pleno desde os seus… 15 anos!

O que quero com isto salientar é o facto de, actualmente, estarmos tão condicionados a considerar que um profissional só o é verdadeiramente “depois dos 18 anos” ou mesmo ainda mais tarde, então o que dizer deste grupo de jovens (Jorge Barradas, Christiano Cruz, Almada Negreiros, Canto da Maia...) que tanto “barulho” fazia nos seus verdes anos, contra as ideias “bolorentas” e tão “bota-de-elástico” da época; que provocaram a reacção do público com o humorismo satírico e vernáculo patente nas 1ª e 2ª Exposições dos Humoristas Portugueses, em 1912 e 1913… tão jovens!

E que geração fantástica!

E se trabalhavam!... António Soares, a quem o Pai tinha posto fora de casa por considerar que a sua teimosia em querer viver da sua própria arte, da pintura e do desenho, não era coisa de pessoa séria… e que anos mais tarde, vem a ser o provedor de toda a família, e inclusive do seu próprio Pai que, enganado por um sócio manhoso, perde todos os bens… (mas isto já é outra história).

Todos eles, todos estes artistas, pintores e desenhadores de génio, se fartaram de trabalhar – era tudo feito à mão, não por computador - no teatro (cenários, figurinos, cartazes), em publicidade (o que hoje em dia se designa por “graphic design”) de Vinhos, de Cintos, de Discos, de Bolachas, de Revista (capas e não só, também publicidade no interior) enfim no que aparecesse...