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20 de novembro de 2015

«O PINTOR ANTÓNIO SOARES» pelo Dr. Horácio Bento de Gouveia

in «Diário de Notícias» - FUNCHAL

Eu o conheci. Há muitos, há poucos anos? O calendário, na sua linguagem numérica, esfumadamente, atesta à memória, onde o tempo reside, lá no mais secreto e fundo dos refolhos que já vão mais de dezoito anos. Eu não quis crer, mas a certeza da experiência que os sentidos e a reflexão vêm enchendo a memória de segmentos psíquicos, imagens de todas as sensações que se sobrepõem consoante as idades, não iludem. Além de que a consciência não desmente, porque a marca do tempo gravou-se-me no rosto. Os sulcos mais profundos o dizem. Olho para o espelho que não é mais especioso a esta verdade física, cada vez mais remordente: o envelhecimento das faces.
Tenho pois a certeza: o tempo vive em mim, e como eco longínquo e morrente e pungente de uma voz que agoniza e identifica a pessoa, assim eu estou a ver Mestre Pintor António Soares. E a lembrança em que o artista avulta é temporal e humana. É espacio-temporal. E se não vejamos: foi por um Outubro de Lisboa, de céu escuro. As noites vinham cedo. A essa hora, nos Restauradores, sentia-se ininterrupta a imagem táctil da viração algida que fazia o corpo reagir com movimentar-se as mãos nas algibeiras, um passeio curto abaixo e acima e os olhos atentos nos vultos que perpassavam. Eram quase sete horas e meia. Estava desagradável, hostil, a noite. E quando os olhos na ilusão espectante do ser que é, e não é, de repente aparece-nos a figura gentilhomem do célebre pintor de D. Luíza de Guzmão. Alto direito, transparecia no semblante o jovem que fora, outra idade. - Meu irmão, disse o acompanhante.
E encetada uma conversa vulgar seguimos para a Rua Eugénio dos Santos. Entrámos no Restaurante. E ali, sentados a uma mesa junto da janela, enquanto se servia a refeição, António Soares foi evocando exumando do passado os seus contemporâneos, os companheiros de suas horas de apoteose de orgulho intelectual, os quais nas exposições eram presença certa como a efectuada no Palácio da Independência em 1947, e a do Secretariado Nacional da Informação em 1957 e em tantas outras. Dava ele às memorações que espontaneamente lhe acudiam, cintilhando nas palavras que expunham com o seu toque afectivo de saudade, as recordações dum pretérito mais próximo ou mais distante, mas sempre com o tom em que a sinceridade do vivido tinha o rigor dos cambiantes do espaço envolvente: e porque o tempo é inseparável do espaço falei-lhe de Salema Vaz, de seu livro de poesia, Pão do Exílio, «escrito que foi durante o desterro e seu caminho, na Ilha da Madeira, cidade do Funchal no ano de MCMXIX». O Pintor António Soares reflectiu uns segundos e disse: Bem sei, lembro-me perfeitamente, o desenho da capa é meu! Já lá vão tantos anos!

"Suavidade" - 1928
 
Salema Vaz esteva na Ilha da Madeira como oficial, quando da I Grande Guerra. Fui amigo dele. Era bom rapaz. E por associação de lembranças surgiu-me à memória um nome que não lhe devia ser desconhecido: Correia da Costa que foi jornalista e escritor. Era inteligente, afirmou, mas que era de temperamento blasé como o de muitos lisboetas.
Depois deste encontro, uma tarde, também de Outubro cinzento, o Pintor recebeu-nos em sua casa. Morava na Rua de Santo António dos Capuchos. Era uma casa antiga, do tempo em que Lisboa seria uma cidade de ambientes de sugestões para Cesário Verde. Entra-se por vetusto portão para um pátio, e escadas nos conduzem aos interiores desta casa solarenga. Salas espaçosas sucediam-se umas às outras. Em uma delas ficava a riquíssima biblioteca. Aquele estilo nobre condizia com o casal que o habitava, no silêncio de claustro: António Soares e sua mulher, senhora mui distinta.
Em sua oficina deslumbra um formoso retrato da Marquesa de Fronteira. Estou a vê-lo. E é tal o realismo da expressão que é pena que não fale. E numa atitude involuntária sentimos o desejo de nos determos, de não nos despegarmos do embevecimento, e deixando-nos permanecer, passivamente em êxtase, arroubamento absoluto. Bastaria o retrato da Marquesa de Fronteira para imortalizar o famoso Pintor.

"Retrato da Marquesa de Fronteira" - 1961
 
Mestre António Soares pertence a alguma escola? Ninguém pode fugir a uma herança. Qualquer que seja a arte á sempre uma herança. Toda a aprendizagem, implica um alicerce, um modelo um arquétipo. Eis porque Platão tinha a sua razão quando expõe a doutrina do mundo das ideias. Mestre António Soares tem raízes de cultura clássica, o que de modo algum significa que não tivesse participado do Movimento Modernista que conta com Henri Matisse como impulsor. Repudiava este as concepções clássicas dos ideais estéticos mas em seu modernismo existe alguma coisa de clássico. Ou então está errado o princípio da substancialidade que nos diz: «Toda a mudança possui algo de permanente». Mas se é certo que António Soares em Portugal compartiu do modernismo, a verdade é que ele é só ele, a sua arte desabrocha e expande-se após uma vida de trabalho isolada, semelhante à dos ascetas. Vivia para si, entregue à ânsia do mais perfeito. E conseguiu, em suas criações, a humana perfeição.
Absorvido inteiramente, obsessivamente, devotadamente à sua arte como os copistas na idade média aos originais, o pensamento tinha apenas um objectivo superior. Por isso não se perde na política. Não nascera político e sim nascera artista para as linhas e as cores. Eis um motivo forte por que António Soares foi grande na sua profissão. A sua Obra o imortalizou em Portugal e no estrangeiro.
Eu bem o conheci. Bem digo esse anoitecer de Outubro em que cadeias familiares me aproximaram de Mestre António Soares, cuja morte me sugeriu esta desataviada crónica.

Funchal, 15 de Outubro de 1978





24 de agosto de 2014

Valores da Pintura Portuguesa - ANTÓNIO SOARES



     Dentre os novos que travaram a cruel batalha da arte, em Portugal, António Soares pode ser considerado um vencedor.
     E nada mais difícil do que vencer pela arte, entre nós.
     Falamos em batalha e o termo não é exagerado: batalha inglória, surda, em que se luta contra um inimigo covarde, que se esconde, que se esfuma na apatia do meio.
     Fazer arte num país onde os artistas são apenas tolerados, onde as exposições não conseguem sacudir a sonolência do público, indiferente, quase hostil, de um público que vive ainda a idade da oleografia barata, é travar uma batalha heróica em que só se mantêm aqueles para quem a arte é uma segunda essência da sua personalidade.
     Sendo um novo, quer pela sua mocidade quer pela sua técnica, António Soares tem já um passado brilhante a atestar o seu labor.
     A pintura de Soares, ultimamente galardoada com a Medalha de Oiro(a) do Salão da Primavera, oferece uma personalidade indiscutível.
     As telas de Soares são unidades sólidas, são valores independentes da escala que o artista traçou, numa visão firme da sua tarefa.
     À pintura de António Soares cabe uma missão, a de demonstrar com veemência, a personalidade, o querer do seu autor. É que Soares é um dos raros pintores, que não titubeiam, que sabem o que querem e ao que vêem.
     Pelo seu processo, pela sua "maneira", Soares sublinha curiosamente a intenção das suas telas, flagrantes, incisivas, modelares.
     A côr não é, para António Soares, a finalidade exibicionista dos que disfarçam a impotência criadora sob a abundância cromática, a côr é para António Soares, unicamente, a veste garbosa de uma intenção espiritual.
     As suas telas representam sempre audaciosas revelações anímicas, análises profundas da verdade que se esconde sob a forma; Soares é um dos raros artistas que compreendem os seus modelos, que travam com êles o diálogo curioso e apaixonado que se traduz na estilisação dum carácter ou duma personalidade.
     Os seus retratos, vivos, intencionais, cheios de observação psicológica, são já uma gloriosa galeria que por si só basta para firmar um nome de artista.
     Os retratados de António Soares vivem na tela a vida espiritual que ocultam, na vida real, sob a máscara apagada do hábito.
     Nas colunas do «A B C» encontrará sempre António Soares o apoio fiel dos seus camaradas de luta, que no terreno ingrato do papel impresso trabalham para o mesmo fim, e que acompanham carinhosamente a sua tarefa brilhante.
     A. C.
in «A B C», Maio de 1929

(a) Salão da Primavera da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), de 1929, onde António Soares havia ganho a Medalha de Oiro pelo seu "Retrato de uma bailarina - Natacha"

"MODERNOS ARTISTAS PORTUGUESES"


in REPÚBLICA, 17 de Maio de 1937

               Sob a direcção do crítico e poeta da moderna geração Artur Augusto começou a publicar-se uma obra, cuja falta muito se fazia sentir. Intitula-se "MODERNOS ARTISTAS PORTUGUESES" e é editada pelas Edições Momento, o que por si só é garantia de que se trata de uma obra graficamente digna do seu objectivo.

               O primeiro fascículo, da autoria de Artur Augusto, ocupa-se da personalidade artística do pintor António Soares, sem dúvida um dos mais dotados e de mais acentuada individualidade dos modernos plasticistas.

               Nesse ensaio, o crítico analisa as características da arte de António Soares, anota a sua evolução e a influência dos seus trabalhos noutros artistas mais novos. Completa o ensaio uma nota dos principais trabalhos decorativos daquele pintor e uma colecção de reproduções de alguns dos seus quadros, especialmente retratos.




21 de agosto de 2014

A Exposição António Soares




Se eu quizesse comprometter certos meninos-prodigios que ja tocam o cavaquinho da critica de Arte nas gazetas encyclopedicas da nossa terra, perguntar-lhes-hia, deante da bisbilhoteira familia portuguesa, se elles teem a noção, mesmo superficial, da differença que existe entre fazer pintura e alinhar adjectivos. Só o desconhecimento impávido do padre-nosso da pintura, pode explicar a desfaçatez com que elles se apresentam em publico, com as cuecas da intelligencia desapertadas, a fazer batuque de phrases repenicadas sobre tonalidades que não percebem, sobre processos que não existem e sobre pintores que não comprehendem.
Não leio nunca meia columna de prosa d’esses criticos de talagarça, incansaveis bordadores de adjectivos de missanga, sem me lembrar, com uma certa piedade, dos incansaveis limpa-calhas dos electricos. Com effeito, a vida dos primeiros tem uma caprichosa parecença com a dos segundos. É a mesma monotonia no giro quotidiano, o mesmo cuidado no exame das curvas, o mesmo culto pelas coisas superficiaes, o mesmo desejo de não correr para não ser atropelado pela Civilisação… De maneira que, quando em Portugal um d’esses raros artistas que não jogam o dominó ao fazer pintura expõe os seus trabalhos mais recentes, é um regabofe para os fornecedores de critica de Arte a domicilio.
N’esse dia, o armário dos logares-comuns, lavados e passados a ferro, é remechido de lez-a-lez. Verdadeiros satyros, os taes senhores apropriam-se inclusivamente das peças mais intimas do volabulario do Sr. Julio Dantas. Põem brilhantina nos substantivos, pomada amor nos adjectivos, um pouco de rouge nos adverbios de modo e pasta Couraça nos dentes das reticencias… E depois, muito satisfeitos, deitam tudo em cima de um papel, misturam, confundem, desarranjam e atiram-nos com a sua obra á cara, provocadoramente, orgulhosamente, como se atirassem com pedras preciosas.
A final, tudo aquilo brilha, á força de pomadas, mas toda a gente vê n’um apice, que não passa de pechisbeque e do mais ordinário…
 *  *  *
Vem isto a proposito do sapateado estrambotico que certos bailarinos da critica fizeram em volta da exposição do pintor Sr. Antonio Soares. Affeitos ao Nº.1 (Natureza Morta) e ao Nº.7 (Mulher da fava rica) das exposições do costume; tendo a retina magnetisada pela doçura de pastel de nata que ornamenta a paleta dos pintores officiaes – esses cavalheiros julgam-se obrigados a fingir que advinham, que percebem, que sentem a Arte moderna em todas as suas manifestações multiformes e labyrinticas. E zás! não estão com cerimonias. Enfiam um par de castanholas na caneta e põem as palavras a dansar jotas e sevilhanas a propósito da technica do pintor, da psychologia dos seus modelos, da dimensão dos seus quadros e até das meias tintas que elle usa…
Emquanto em Portugal não estiver estabelecido por lei que não basta possuir um bilhete de livre transito da policia para se ter o direito de fazer critica d’arte, o publico não saberá quais são, entre nós, os artistas verdadeiramente dotados. Ninguém lh’o diz nas gazetas – com sinceridade e com convicção. Pois será, por acaso, elucidar o publico chamar a um pintor que não sahiu de Rilhafoles, que não é estrábico, que não toma cocaína, que aborrece o absinto, esta coisa tremenda – sensibilidade mórbida? Pois não será uma palhaçada, d’essas que fazem rir pacóvios, chamar ao lápis preto, vulgar, Faber nº.2, de um desenhista – lápis côr de rosa? Pois será, por ventura, fazer critica encher uma columna de jornal com pontos, virgulas, pontos e virgulas e palavrinhas como estas – pinceladas multicores, manchas admiráveis de intenção, assombrosa correcção de traço?
O Sr. Antonio Soares é a victima mais recente das pachouchadas da critica. Treinado no desenho desenha. Pintor por temperamento pinta. A razão fundamental da sua arte é isto e não tem nada de mysterioso. Porque lhe attribuem os críticos ademanes de fakir? Porque deslustram a sua arte tão limpida, considerando litteraria a sua pintura? Porque veem intenções perversas, nervos excitados, caprichos de visão, détraquement, onde existe simplesmente raciocinio, observação, alma, intelligencia e métier? Porque se perturbam com as côres esbatidas nos quadros, se ellas nem são estranhas nem abomináveis se são, de facto, as côres exigidas pelo décor imaginado e vivido pelo artista? Porque veem complexidade e malabarismo onde ha unicamente verdade e belleza?
Como o impudor vai corrompendo todas as camadas da sociedade portugueza! Como ha de ser difícil rehabilitar uma nacionalidade atropelada, dia a dia, na sua vida intellectiva e moral, por essas manadas de bucephalos traiçoeiros que p’ra’hi estadeiam a sua influencia! Elles intromettem-se na politica, elles dominam na litteratura, elles pontificam na critica de arte, sobranceiros, petulantes, apparatosos e… tremendamente inconscientes. Tremendamente inconscientes, repito. Porque, se o não fossem, restringiriam a sua acção, saberiam disfarçar a sua ignorancia, tentariam tornar menos offensivo do senso-commum o seu culto ruidoso da banalidade. Mas ninguém tem já força para os suster na sua marcha desenfreada. E elles seguem, seguem por’hi fóra, espezinhando concepções d’arte, amachucando ideias de belleza, cortando cerce as expansões mais rutilas da vida moderna – verdadeiros barbaros na exhibição do seu encyclopedismo asnatico que só um paiz lymphatico como o nosso pode auctorisar e fortalecer…
*  *  *
A exposição de pintura de Antonio Soares, compunha-se d’um certo numero de quadros, que não contei. Os jornaes foram, porém, d’uma unanimidade generosa na fixação do numero – 30. Nem 29, nem 31. Trinta. Quando entrei na sala da Exposição olhei os quadros em conjuncto. Fiquei encantado, humanamente encantado, sem que a minha sensibilidade, apesar de bastante flexível, soffresse nenhum arrepio. Décor luminoso, levemente garrido, originando uma atmosphera translucida e suave que me deixou o espirito n’um á vontade pouco frequente. Silhuetas desencontradas, d’um colorido hipnotico, attrahentes, com movimento, desafiando altivamente a luz. Linhas ondulantes, sensuaes, femininas, aqui, acolá, mais além, multiplices, desembaraçadas e definitivas. Vida. Vibração. Claridade. Nada de mysterioso nem de satanico…
Foi isto que vi n’um relance, a distancia.
Ao abeirar-me dos quadros, a minha primeira impressão não soffreu quebranto. Desconheço o ritual da louvaminha. Tenho, portanto, o direito de escrever que não vi nada de grandioso nem de immortal. O sr. Antonio Soares não possue, felizmente, a mania das grandezas. E também não tem a velleidade de suppôr que a sua obra actual é definitiva e intangível. O traço mais nítido da sua personalidade de artista é o seu desejo de ineditismo. A sua pintura não crystallisou. A procura de tonalidades lucidas e vibrantes é continua. Inferioridade? Bizarrismo? Inexperiência? O contrario d’isto tudo. Pintar é dynamisar. Tudo tem expressão. Tudo tem, por conseguinte, movimento, mesmo o que parece incorpóreo. O verdadeiro artista vive para a recherche d’esse movimento, tem a ambição de surpreender o imponderavel.
Os críticos ignaros não perceberam esta ambição em nenhum dos trabalhos do sr. Antonio Soares. Pois ella é bem transparente! E também não presentiram que estavam em presença de um artista invulgarmente intelligente e dotado de um excepcional temperamento de pintor. Basta vêr o equilibrio perfeito das suas composições para se comprehender que o artista não as improvisou, como um tocador de fado. Ha alli consciência, intenção e recursos technicos. Ha principalmente intenção. E isto, para mim, é fundamental. Um artista que sabe o que quer, embora o não realise completamente, é sempre um valor positivo. Mais cedo ou mais tarde – na hora propria  o seu triumpho é certo e só poderá surprehender os que julgam que a pintura, mesmo a de coisas fúteis, é uma futilidade.
*  *  *
Uma das coisas mais irritantes para os críticos foi o sr. Antonio Soares ter exposto unicamente cabeças de mulheres. D’esse facto naturalíssimo, inferiram esses senhores que o sr. Antonio Soares preferira o mais fácil, quando a verdade é que elle escolheu o mais dificil. Dar expressão a uma physionomia, vibratilisar uma figura, vivificar um modelo até o ponto de o vermos em relevo dentro do encadrement, não é trabalho que permitta sortes de prestidigitação na technica. Depois, existe ainda esta difficuldade tremenda: fixar, sem exaggero de detalhes, o intimo, a psycologia, a sombra moral e pathologica do personagem e de forma que o seu exame permitta inclusivamente, mais tarde, entrever as características da sua epocha.
Quando um artista consciente se abalança a trabalhos d’estas exigencias, em vez de realisar o mais fácil (que é sempre o mais vistoso e o mais artificial) merece encómios e não diatribes. O Sr. Antonio Soares obteve o que não merecia. Até lhe chamaram com proposito deprimente – pintor de mundanidades. E acrescentaram solemnemente que ele possue uma sensibilidade morbida e que a sua pintura é sensual e perversa. Onde? Como? Porquê? Não é a pintura que é sensual e perversa é a mulher, as mulheres que serviram de modelo ao Sr. Antonio Soares. Mas de quem é a culpa? As mulheres que elle pintou são assim, aparte a estylisação que acompanha, inevitavelmente, a imaginação do artista criador de ambientes picturaes. E essa estylisação, que não implica com a verdade, junta com a intenção decorativa, constitue uma das notas mais originaes da pintura do Sr. Antonio Soares.
VICTOR FALCÃO

in Contemporanea nº.7 1923 


NOTA: o texto deste artigo está grafado tal qual aparece no texto original, de 1923; a exposição referenciada é a 3ª. Exposição Individual, que teve lugar na Casa Araújo & Bastos, inaugurada na última semana de Dezembro de 1922, que esteve patente até aos primeiros dias de Janeiro de 1923




19 de agosto de 2014

António Soares, um pintor excepcional

por Manuela de Azevedo

António Soares mergulhou as raízes da sua arte no mais puro da forma e da criação clássica para aflorar da terra na mais bela, sádia e estonteante expressão da pintura moderna. O artista despiu os ouropéis do academismo decadente e ergueu-se, puríssimo de forma e côr, acima de tudo o que entre nós constitue conceito de arte. Na verdade, que suave, que reconfortante, que extraordinário banho de beleza se toma, visitando a mais notável exposição de pintura a que Lisboa tem assistido nos últimos anos…

Mesmo quando é pagão – é ungido de um misterioso sôpro de sentimento bíblico. Às vezes as suas têmperas são pastorais melodiosas. Outras vezes, porém, lembram bocadinhos de brasa viva, satânica, arrancados a corpos coleantes ou às almas de fogo de vidas transviadas do caminho do amor sagrado…

Quando se entra no primeiro salão da exposição, ali à Rua Ivens, na Casa Jalco, o interiorismo da pintura como se fecha ainda mais. É preciso por os olhos em cada um dos quadros, porque nêles não há as cores gritantes do empastelado dos óleos, mas a suavidade austera – mesmo quando é fresca e primaveril – das têmperas inconfundíveis… de António Soares.

Que coisas maravilhosas é possível criar com um sépia quente, um rosa suave e um verde sêco de combinações secretas!...

António Soares é hoje o nosso primeiro artista de têmpera: pela segurança do desenho, pela voluptuosidade quási inconsciente das formas e o bom gosto das combinações de cores. E, não só por isso – e nem só na têmpera – António Soares se pode comparar a si próprio: é simplesmente pela frescura e expontaneidade dos seus têmas. Há dias, visitando as Belas Artes, dissemos uma heresia de que queremos penitenciar-nos: a arte de pintar não está em crise. Os artistas é que o estão – diremos agora, ao deixar saudosamente desprenderem-se os olhos do último quadro de António Soares. Os têmas não estão batidos nem banalizados – há muito de extraordinário a colher da natureza como sugestão artística. António Soares assim o prova na escolha dos assuntos em que nem uma só vez se repete, banaliza ou amesquinha. A têmpera, como o fresco, é a arte dos mestres por excelência, aquela que não consente a hesitação nem o engano. E António Soares dando-nos os seus quadros, é muitas vezes mestre.

Que admirar mais na pureza desta obra, feita por um homem excepcional do nosso século – e desde já queremos dizer que Êste artista é “aquilo” que procurávamos em pintura – com seu respeito pela forma, dentro de um processo absolutamente moderno, quer pela técnica, quer pela interpretação da vida e dos homens?

Das suas paisagens ressuma um “sombre” aveludado, de tufos voluptuosos, como das velhas e magníficas tapeçarias da (ilegível); as suas figuras têm coisa de rácico sem etnografia. E mesmo quando são os nossos homens do campo ou lavadeiras – dir-se-ia que não pertencem ao nosso meio, que são faunos ou ninfas de bosques maravilhosos, tão outros, na sua superioridade, são os olhos do artista que os viram e os transmitiram à tela, em cromáticas criações do seu espírito.

“Composição” dá-nos, efectivamente, êsse vislumbre de paragens edénicas dos quadros da Renascença florentina, e a “Rapariga das Maçãs”, como “Vindimadora” ou o “Corpete Vermelho”, riquíssima policromia feita de pedrarias, servem apenas para ilustrar, como evocação, uma opinião que há-de ser unânime – para prestígio e boa reputação do nome da nossa gente.


Corpete Vermelho - 1944

Entretanto, António Soares não vai só à natureza e às coisas materiais buscar sugestões para os assuntos dos seus quadros. Porque tem sensibilidade, técnica e espírito criador, a música serviu-lhe um grande, um excelente têma: Dukas no “Aprendiz de Feiticeiro”, teve em António Soares um grande intérprete sem instrumentos musicais nem influências de Disney.

Dizem-nos que os quadros deste grande artista – e grande em qualquer parte, como o consideraram em Paris – têm obtido uma alta consideração do público que pode animar as artes. Ainda bem! Ainda bem – não por António Soares, já o dissemos, mas por êle próprio, o público que demonstra assim ser acessível à penetração da arte de António Soares – uma arte que não tem comparação e é só igual ao espírito de quem a cria…


in "Vida Mundial Ilustrada", 1944


8 de fevereiro de 2013

António Soares traz à pintura portuguesa uma expressão nova de beleza

por Artur Portela

Valeu a pena este silêncio de catorze anos! Dir-se-ia que o talento de António Soares no isolamento, na ascese e até mesmo na contradição, atingiu a plenitude criadora. Durante esse tempo, o artista como que requintou a sua maneira, descobrindo novas refulgências de beleza, novos acordes de tonalidades, novas expressões de beleza. Esta sua exposição (9ª exposição individual), seja qual fôr o prisma crítico, é um notável acontecimento artístico.

António Soares como que criou o seu mundo, numa síntese admirável de formas e de côres. Através da sua sensibilidade, tão finamente espiritual, que sabe converter a realidade em sonho, António Soares alarga, de certa maneira, as fronteiras da escola estética em que nasceu, para lhe dar uma realidade eloquente. Por outras palavras mais simples: todas as experiências, aquisições, e "recherches" do modernismo, decantados pela sua maneira, traduzem-se em extraordinários conceitos plásticos, de serenidade ideal, que acusam ou vibram, com o toque maravilhoso da obra prima. Evidentemente que nem todos os seus quadros apresentados são dum significado igual. Mas a maior parte, a grande parte, devemo-la considerar indiscutível.

António Soares é um complexo bizarro e rico de valores. A sua pintura, tão aliciante, tanto nos evoca a graciosidade "mievre" dos grandes artistas do século XVIII - e, nomeadamente, dum Watteau estilizado, como as extraordinárias sugestões de côr, dos cenários dos bailarinos russos, quando Nijinsky dançava pelo mundo. Esta galeria é, sobretudo, uma alta manifestação de pura espiritualidade. Um grande músico pintaria como Soares, convertendo as notas em magias cromáticas. As suas mulheres têm a aristocracia, a raça, a elegância, a finura e a distinção dos tipos excelsos que abrem novos paradigmas à beleza. Dentro daquela maneira que revela uma personalidade, é impossível fazer-se melhor. António Soares como que se resgata da sua misantropia, obtendo uma vitória clamorosa e definitiva. Supomos que o artista não pinta sobre tela, mas num pano especial, ligeiramente, tinto, cuja superfície suave, macia, dá mais fluidez aos pincéis e funde melhor os valores da paleta. Havia que elogiar muito, quasi tudo, desde a "Natacha", que define um singular tipo de mulher de olhos errantes e nostálgicos, até as suas naturezas mortas, tocadas com subtil preciosidade. O "Camarim" é uma autêntica maravilha, ante a qual os olhos ficam tontos de assombro, de emoção. É, simplesmente, lindo, aquele "boudoir" em que a figura tem alguma coisa de floral. "Bailado Romântico" é duma extraordinária, duma enfeitiçada magia de tinta. As duas figuras, entre rompimentos de luz sobria e surda, traçam uma admirável parábola. "Composição" é outra obra a destacar. António Soares transpôs, se não renovou, a técnica dos Gobelins, mas pintor sempre, deu-lhe uma expressão de suprema elegância decorativa. "Vindimadora", "Alto Longo", "Entre Bastidores", "Atrás do Rompimento" são, entre outros, obras que fixam a perfeição que António Soares atingiu.

Um grande pintor e uma grande obra. Estamos certos de que, no salão da Rua Ivens, Lisboa teve, ocasionalmente, uma verdadeira sala de museu.

in DIÁRIO DE LISBOA, 1944