Mostrar mensagens com a etiqueta Brasileira do Chiado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Brasileira do Chiado. Mostrar todas as mensagens

1 de setembro de 2013

Inventário ou Catálogo Raisonné... da obra do Mestre António Soares

Já aqui tenho feito referência, em vários notícias, ao "Inventário"... E o que é o "Inventário"? Normalmente também se pode utilizar a palavra mais internacional, francesa, "Raisonné", que significa sensivelmente o mesmo, que é a listagem detalhada, com várias entradas e referências bem como com reproduções (ou não), da obra de um artista plástico, ou de um grupo de artistas, por exemplo.

Normalmente os artistas são... "artistas", isto é, temos na ideia que são pessoas um pouco alheadas dos aspectos práticos e mais "comesinhos" do dia-a-dia. Algumas vezes esta imagem é exactamente verdadeira e correcta, e designa na maior parte das vezes, muitos dos "artistas" que se tornaram mais conhecidos mundialmente. Assim como artistas menos conhecidos. 

Aliás até há "artistas"... sem obra... os "verdadeiros artistas"...

Mas nem sempre tem de ser, ou é, assim. Posso dar um exemplo maisto recente, por exemplo do artista austríaco, Friedensreich Hundertwasser, que faleceu há poucos anos, que até nem ligava muito ao facto de ter ou não dinheiro para comer ou se vestir, mas que foi um dos primeiros verdadeiros Ecologistas! Porém tinha sempre o maior cuidado na numeração e contabilização de todas as suas obras de arte, quer fossem serigrafias, que conseguia tornar únicas cada uma das unidades de várias séries, quer os seus magníficos quadros, quer painéis de azulejos - temos o privilégio (todos os cidadãos) de poder admirar um magnífico painel no Metropolitano da Gare do Oriente - quer projectos de arquitectura...

Vem esta referência a propósito da obra do Mestre António Soares. Efectivamente, desde a sua morte há trinta e cinco anos, tem vindo o seu irmão, Américo Soares, a elaborar o "Inventário" ou "Raisonné" de toda a obra, a partir de Catálogos das exposições Individuais e Colectivas, das reproduções (fotos) a partir do advento da fotografia, mas principalmente a partir de um instrumento precioso e inusitado (tendo em conta a "definição de artista" acima): das suas agendas.

Efectivamente o Mestre António Soares, que para além da sua paixão pela pintura, não teve Pai rico que o sustentasse e teve de viver do seu trabalho, tornou-se (por temperamente ou por necessidade) numa pessoa muito organizada que registava toda a sua vida em agendas que, felizmente, nunca deitou fora! A cada dia, em agendas grandes, de tamanho aproximado a folhas "A4", registava todas as saídas e entradas de dinheiro, desde o pão, os sapatos que tinham ido ao sapateiro, a conta paga ao talhante ou... "o quadro xxxxx vendido por $$$$$ ao Sr. Fulano". (verdadeiramente a "inveja" de qualquer investigador)...

Mas não foi só isso o espólio do grande artista. Tinha também o cuidado desde muito jovem, de guardar todas as referências às exposições, os artigos de jornal, as críticas, e... imensa correspondência!

Correspondência de amigos, de colegas, de coleccionadores, desde 1912 e anteriores... Há postais e cartas que, sem códigos postais iam ter às mãos do destinatário: cartas dirigidas "Ao Pintor António Soares, Café A Brasileira do Chiado, Lisboa". (testemunhos fantásticos!...)

Depois da Biografia completa, está na nossa ideia a publicação de "Correspondência", e em função da oportunidade, ou do interesse que possa vir a ser demonstrado, mais publicações relativas a grupos de obras ou a épocas, a tipos de actividade - está em estudo, por parte do Museu Nacional do Teatro, a elaboração de um Raisonné da obra do Mestre António Soares em tudo o que ao Teatro diz respeito, onde ele trabalhou durante muitos anos.

Mas mais recentemente, através da Internet, também me tem sido possível recuperar imagens de obras das quais não tinhamos referências ou imagens, pelo que o "Inventário" está sempre a ser actualizado.

Bom seria que os proprietários de colecções particulares nos contactassem a fim de podermos actualizar as imagens das obras que possuem. Também para efeitos de autenticação de obras, neste momento, a Família do Mestre António Soares, é a entidade mais idónea e credível de autenticação de obras de António Soares!

Vamos continuar a trabalhar nesse sentido, de descobrir e dar a conhecer onde se podem encontrar, em locais públicos, obras deste grande pintor do século XX.


28 de março de 2013

Os Quadros da Brasileira do Chiado

Em 1921, António Soares é convidado a participar e acaba a coordenar a distribuição dos temas para os quadros da Brasileira do Chiado, pelos vários colegas / colaboradores, e realiza dois quadros que contêm pessoas da sociedade lisboeta da época e que eram habitués a frequentar a Brasileira. Um dos quadros representa elementos femininos (Botequim) e o outro, elementos masculinos (Cena de Café) - sabemos que um deles está, hoje em dia, numa colecção particular em Lisboa (este quadro - o das figuras femininas ainda não foi encontrado). Os dois quadros serão apresentados no I Salão de Outono da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1925.  
No quadro dos elementos masculinos, começa por esboçar o perfil de Fernando Pessoa mas este, depois de questionado, pede delicadamente a António Soares que não o inclua no grupo, até porque o café que frequentava mais assiduamente era o "Martinho da Arcada". Julgamos nós que seria por convicções pessoais, por não gostar de ser retratado, ou por pertencer aos "Rosa-Cruz". 
António Soares, porque dedica a Fernando Pessoa um grande respeito e amizade acaba por aceder ao pedido do amigo e retira a sua imagem do quadro, não sem antes fazer uma fotografia, que aparece abaixo, absolutamente datada pois a criança que está à frente do quadro é a irmã de António Soares, Judite, que teria à data cerca de 10 anos.

Fica aqui a fotografia, inédita:


(foto colecção da Família de António Soares)