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19 de agosto de 2014

Internacionalismo Artístico - Os Artistas Portugueses, novos e velhos, devem expôr em Viena de Áustria

28/Maio/1928

A SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES ABANDONOU A SUA POLÍTICA DE FEROZ ISOLAMENTO, DIZ-NOS UM DOS SEUS DIRECTORES, O PINTOR ANTÓNIO SOARES


António Soares, pintor de merecido renome, director da Sociedade Nacional de Belas Artes, falou-nos hoje, sobre a exposição dos artistas portugueses em Viena de Áustria.
A entrevista começou por estas palavras:
– Portugal artístico…
– Viveu sempre num grande isolamento, chamado concerto de actividades que giram em volta do progresso artístico.
– Concerto, cheira a lugar comum. E se falássemos do papel da Sociedade Nacional de Belas Artes, e o que ela tem feito, pró ou contra esse… concerto.
Rimos, ambos, concordámos em riscar a palavra concerto, e arquivámos esta afirmação:
– A Sociedade Nacional de Belas Artes, até há pouco tempo, conservou propositadamente, sob o pretexto de um inadequado tradicionalismo, a arte nacional, sob a pressão de uma política de feroz isolamento, como se do contraste entre a nossa arte e a dos outros países, não resultasse uma maior diferenciação benéfica para o prestígio da nacionalidade.

O COMBATE À ARTE MODERNA

«O resultado foi que o desenvolvimento e progresso artístico se anularam por falta de estímulo. Atrasamo-nos tanto em relação às variadas expressões da arte moderna, que os chamados artistas modernistas chegaram a ser combatidos quando pretendiam revelar processos de realização que lá fora, ou já tinham sido consagrados, ou já estavam “démodés”.»
«Esse combate assumiu um aspecto grave. Tudo quanto representasse desarticulação de processos, arrojo no sacudir de convencionalismos, foi tomado como estrangeirismo, desnacionalização.»
– Crê que da entrada de Portugal, no tal concerto das actividades artísticas da Europa, resulte numa vantagem para o ressurgimento da arte portuguesa?
– Absolutamente, à falta de outro tomo mais categórico.
«A arte é uma actividade coordenadora do espírito. A arte assume no mundo do Pensamento, o papel que a Beleza representa na vida: Dignifica. Ela é o equilíbrio lógico entre a vida prática e a faculdade de idealizar.
«Discordamos deste modo, da opinião de algumas pessoas com responsabilidades que sustentam que a maior falta do país, é a falta de… géneros de primeira, e não de arte, que poderíamos muito bem dispensar.
«A Áustria ainda não asfixia da inflacção que chegou a merecer do mundo um clamor de piedade, subsidiou largamente, e de que maneira!... a sua representação industrial e artística na Exposição de Paris, de 1925.»
– Das Artes Decorativas?

A ARTE E A VIDA ECONÓMICA DAS NAÇÕES PRÓSPERAS

– Isso. Para se avaliar da importância de tal concurso, bastaria relembrar que o livro oficial dessa representação era subscrito por cinco ou seis homens públicos, dois deles umas vezes presidentes de conselho, e um outro ministro dos Estrangeiros, não falando dos restantes, que (é) muito possível que tivessem sido ministros das subsistências. Todos eles afirmavam que o desenvolvimento industrial, e, portanto, a economia nacional…
– E os géneros de primeira…
– Dependem do desenvolvimento dado às artes.
– É chegado o momento de voltarmos a falar da Sociedade Nacional de Belas Artes.
– A actual direcção pensa como nós, e à sua nova orientação deve a situação magnífica que começa já a disfrutar no reconhecimento oficial, por parte de países mais adiantados do que o nosso em matéria de Belas Artes.
Evocamos a participação de Portugal na Exposição de Viena de Áustria.

OS ARTISTAS QUE VÃO A VIENA DE ÁUSTRIA

– Tudo isto não seria possível sem a colaboração dos raros que neste país mantêm a tradição do talento e da inteligência. O artista do nosso país é um ser sem existência nem especial relevo na vida oficial e social. Faltava-lhe o impulso de pessoa de categoria mental e situação oficial que se prontificasse a valorizar o seu esforço e a conduzi-lo através dessa Europa que desconhecemos e nos desconhece também.
– E esse homem apareceu?
– Na pessoa do Dr. Veiga Simões, velho amigo dos artistas do seu e do nosso país.
«À brilhantíssima exposição de “Ex-Libris”, seguir-se-á o intercâmbio artístico entre Portugal e Áustria.»
– Quando?
– Falta designar a data em que essas festas se realizarão. Calcula-se, contudo, que dados os nossos afazeres com a Exposição de Sevilha e Salão de Outono, os artistas austríacos devem fazer a sua exposição em Lisboa no começo do ano de 1929.
– E os nossos? Quem vai à Áustria?
– Assentou-se para a Exposição de Sevilha que não há novos nem velhos. Há artistas que têm valor, e os que não têm. Assim, todos os (que) valem irão. Depois de muita discussão assentou-se nisto.
– É um bom princípio.
É um rico fim de entrevista…

8 de fevereiro de 2013

Natacha - Retrato de uma Bailarina


Considerada por José-Augusto França a obra-prima de António Soares, este "Retrato de uma bailarina", "Natacha", "Retrato de uma bailarina russa" ou simplesmente "Retrato", designações da mesma obra em diferentes Catálogos de exposições individuais e colectivas, é uma têmpera sobre tela datada de 1928. Foi com esta obra que Mestre António Soares obteve o seu 1º Prémio de Desenho da XXVI Exposição de arte na SNBA - Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1929. (a)

Adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian ao coleccionador e empresário Fernando Seixas - que a adquiriu para evitar que fosse levada para a América Latina por um outro coleccionador particular - mais tarde vem a pertencer ao acervo inicial da colecção de obras do Modernismo do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão - inaugurado em 1983. Hoje em dia, faz parte da colecção permanente deste precioso espaço museológico, detentor de um importante acervo de obras de Mestre António Soares.

Sendo precisamente considerada uma das obras mais carismáticas quer do autor, Mestre António Soares, quer do Movimento Modernista Português, não esteve presente na exposição "O Modernismo Feliz - Art Déco em Portugal" do MNAC - Museu do Chiado em 2012, simplesmente por se encontrar nesse segundo semestre de 2012, em período de manutenção. Mas foram cedidas outras obras da colecção do CAMJAP, assim como de outros espaços museológicos do país.

Esta bailarina "russa", mais precisamente, estoniana, Natacha Baltina, esteve em Portugal com a Companhia de Bailado de S. Petersburgo. Acabou por se apaixonar e casar com um membro do corpo Diplomático da Embaixada de Cuba em Lisboa, o diplomata Eduino Mora. A amizade que teve início na pintura do retrato prolongou-se durante muitos anos, entre as duas famílias, e o casal, sem filhos, manteve visitas regulares a Portugal e à família António Soares. Quando morre, anos mais tarde, Natacha vem a ser enterrada em Lisboa.

(a) in "O Notícias Ilustrado", pág.8 de 26 de Maio de 1929, artigo de Augusto Ferreira Gomes: "(...) Desde os desenhos assinados simplesmente António - já lá vão 15 anos - até à tela que esta época expôs nas Belas Artes - trabalho este demonstrativo de conhecimentos profundos de pintura - (...) António Soares pode orgulhar-se de ser um grande pintor em qualquer parte do mundo(...)", 1ª. medalha em "Desenho" com o quadro "Natacha".