20 de novembro de 2015

Catálogo Digital (3) "OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES"

Continuando com o nosso Catálogo Digital. Vamos ver primeiramente a mesa com algumas publicações, nomeadamente a capa da "Ideia Nacional" de Homem-Cristo filho.

Capa de António Soares
Duas capas de António Soares para dois livros do seu amigo António Ferro, amigo da juventude, que a política fez separar...









António Soares - autor do cabeçalho do "ABC A RIR" - 1920




"Vogue - estudo" - 1930



"A Herança das Bacalhoas" - 1915


  




"Esboço de retrato" - 1934

"Cabeça cubista" - 1922

"Capa para Catálogo de Exposição António Soares - estudo" - 1922
Nesta mesa tínhamos ainda uma cópia de um dos livros de Inventário da obra de António Soares, iniciado por seu irmão no início dos anos 80, pouco depois da sua morte, bem como uma ficha.

Passando para a segunda mesa, que continha fundamentalmente objectos pessoais, e fotografias.

"Retrato de Madame Veiga Simões" - 1921

As fotos da Mãe e do Pai, dele e da futura mulher, uma foto do casamento que foi realizado em casa da Mãe da noiva. E depois objectos pessoais: os óculos, os isqueiros e cinzeiros (tendo sido António Soares um fumador inveterado, o que era comum na época), um óculo de ourives (recordação da sua passagem como aprendiz, onde descobre a sua paixão pelo desenho e a pintura), uma foto do casal cerca de 1973, onde conseguimos apreender um certo ar de cumplicidade e carinho entre os dois...



Vamos deixar ainda aqui algumas imagens da sessão de inauguração, com um agradecimento a todos os amigos que conseguiram estar presentes connosco, nesse dia.





Um agradecimento muito especial ao Mestre José Rodrigues e Lindinha, pelo carinho com que nos receberam na sua "Catedral" de cultura que é a Fundação!





DESEJO / TENSÃO / TRANSIÇÃO - Experimenta DESIGN 2015 - ExD15 - na Galeria NAVE em Matosinhos

Este ano, a novidade da Experimenta Design 2015 não é só o facto de se ter espalhado e ter mais dois pólos no Norte, mais precisamente em Matosinhos e no Porto. 
A novidade é que há um núcleo de desenhos sob o tema  

"DESENHAR O MODERNISMO" 

que apresenta cerca de 75 desenhos inéditos de Mestre António Soares!

A exposição de Matosinhos vai estar patente de 12 de Novembro até 12 de Março de 2016, todos os dias úteis - de Segunda a Sexta das 9h - 12h e 14h - 17 - Sábado das 15h - 18h.



O convite que aqui fica é irem visitar o núcleo de Matosinhos - Galeria Nave da Câmara Municipal de Matosinhos. 
De qualquer modo, iremos colocar aqui as imagens que estão patentes, como meio de divulgar ainda mais o nome de Mestre António Soares, desta feita como um dos "pais" do Design Português...


A PINTURA MODERNISTA na Colecção MillenniumBCP (2)

Justifica-se e tem actualidade. Logo juntaremos mais imagens da colecção António Soares na colecção Millennium BCP.

Esta exposição apresenta uma selecção das obras da Colecção Millennium BCP  cujos autores iniciaram as suas carreiras nas primeiras três décadas do século XX. Para a história da arte, são artistas modernistas que questionaram os processos da pintura naturalista, empenhada na verosimilhança entre o visto e o representado. Os modernistas, pelo contrário, não acreditam nessa naturalidade do ver: pretendem que o espectador não confunda a realidade com a pintura e sugerem que esta pode enriquecer aquela, através da imaginação plástica.
Na maioria dos casos, as obras expostas confirmam o que a história da arte foi elaborando, mas, noutros, a surpresa pode emergir. Este é o desafio que a exposição propõe, quer aos especialistas, quer os visitantes interessados: que cada um indague e encontre afinidades emotivas e estéticas que confirmem (ou perturbem) o que antes sabia ou amava.
Raquel Henriques da Silva
Curadora da Exposição


Exposição composta por 60 obras de 15 artistas modernistas portugueses: António Carneiro; Amadeo de Souza-Cardoso; Eduardo Viana; José de Almada Negreiros; Francis Smith; António Soares; Mily Possoz; Jorge Barradas; Bernardo Marques; Mário Eloy; Júlio Reis Pereira; José Dominguez Alvarez; Carlos Botelho; Dordio Gomes; Carlos Carneiro.

Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco
Campo Mártires da Pátria; S/N (Devesa)
6000-097 Castelo Branco
13 Nov  2015 > 10 Abr 2016
Entrada gratuita
Ter > Dom 10h > 13h / 14 >18h
Encerra segundas-feiras

"Velhos Bairros ao Sol" - 1932

«O PINTOR ANTÓNIO SOARES» pelo Dr. Horácio Bento de Gouveia

in «Diário de Notícias» - FUNCHAL

Eu o conheci. Há muitos, há poucos anos? O calendário, na sua linguagem numérica, esfumadamente, atesta à memória, onde o tempo reside, lá no mais secreto e fundo dos refolhos que já vão mais de dezoito anos. Eu não quis crer, mas a certeza da experiência que os sentidos e a reflexão vêm enchendo a memória de segmentos psíquicos, imagens de todas as sensações que se sobrepõem consoante as idades, não iludem. Além de que a consciência não desmente, porque a marca do tempo gravou-se-me no rosto. Os sulcos mais profundos o dizem. Olho para o espelho que não é mais especioso a esta verdade física, cada vez mais remordente: o envelhecimento das faces.
Tenho pois a certeza: o tempo vive em mim, e como eco longínquo e morrente e pungente de uma voz que agoniza e identifica a pessoa, assim eu estou a ver Mestre Pintor António Soares. E a lembrança em que o artista avulta é temporal e humana. É espacio-temporal. E se não vejamos: foi por um Outubro de Lisboa, de céu escuro. As noites vinham cedo. A essa hora, nos Restauradores, sentia-se ininterrupta a imagem táctil da viração algida que fazia o corpo reagir com movimentar-se as mãos nas algibeiras, um passeio curto abaixo e acima e os olhos atentos nos vultos que perpassavam. Eram quase sete horas e meia. Estava desagradável, hostil, a noite. E quando os olhos na ilusão espectante do ser que é, e não é, de repente aparece-nos a figura gentilhomem do célebre pintor de D. Luíza de Guzmão. Alto direito, transparecia no semblante o jovem que fora, outra idade. - Meu irmão, disse o acompanhante.
E encetada uma conversa vulgar seguimos para a Rua Eugénio dos Santos. Entrámos no Restaurante. E ali, sentados a uma mesa junto da janela, enquanto se servia a refeição, António Soares foi evocando exumando do passado os seus contemporâneos, os companheiros de suas horas de apoteose de orgulho intelectual, os quais nas exposições eram presença certa como a efectuada no Palácio da Independência em 1947, e a do Secretariado Nacional da Informação em 1957 e em tantas outras. Dava ele às memorações que espontaneamente lhe acudiam, cintilhando nas palavras que expunham com o seu toque afectivo de saudade, as recordações dum pretérito mais próximo ou mais distante, mas sempre com o tom em que a sinceridade do vivido tinha o rigor dos cambiantes do espaço envolvente: e porque o tempo é inseparável do espaço falei-lhe de Salema Vaz, de seu livro de poesia, Pão do Exílio, «escrito que foi durante o desterro e seu caminho, na Ilha da Madeira, cidade do Funchal no ano de MCMXIX». O Pintor António Soares reflectiu uns segundos e disse: Bem sei, lembro-me perfeitamente, o desenho da capa é meu! Já lá vão tantos anos!

"Suavidade" - 1928
 
Salema Vaz esteva na Ilha da Madeira como oficial, quando da I Grande Guerra. Fui amigo dele. Era bom rapaz. E por associação de lembranças surgiu-me à memória um nome que não lhe devia ser desconhecido: Correia da Costa que foi jornalista e escritor. Era inteligente, afirmou, mas que era de temperamento blasé como o de muitos lisboetas.
Depois deste encontro, uma tarde, também de Outubro cinzento, o Pintor recebeu-nos em sua casa. Morava na Rua de Santo António dos Capuchos. Era uma casa antiga, do tempo em que Lisboa seria uma cidade de ambientes de sugestões para Cesário Verde. Entra-se por vetusto portão para um pátio, e escadas nos conduzem aos interiores desta casa solarenga. Salas espaçosas sucediam-se umas às outras. Em uma delas ficava a riquíssima biblioteca. Aquele estilo nobre condizia com o casal que o habitava, no silêncio de claustro: António Soares e sua mulher, senhora mui distinta.
Em sua oficina deslumbra um formoso retrato da Marquesa de Fronteira. Estou a vê-lo. E é tal o realismo da expressão que é pena que não fale. E numa atitude involuntária sentimos o desejo de nos determos, de não nos despegarmos do embevecimento, e deixando-nos permanecer, passivamente em êxtase, arroubamento absoluto. Bastaria o retrato da Marquesa de Fronteira para imortalizar o famoso Pintor.

"Retrato da Marquesa de Fronteira" - 1961
 
Mestre António Soares pertence a alguma escola? Ninguém pode fugir a uma herança. Qualquer que seja a arte á sempre uma herança. Toda a aprendizagem, implica um alicerce, um modelo um arquétipo. Eis porque Platão tinha a sua razão quando expõe a doutrina do mundo das ideias. Mestre António Soares tem raízes de cultura clássica, o que de modo algum significa que não tivesse participado do Movimento Modernista que conta com Henri Matisse como impulsor. Repudiava este as concepções clássicas dos ideais estéticos mas em seu modernismo existe alguma coisa de clássico. Ou então está errado o princípio da substancialidade que nos diz: «Toda a mudança possui algo de permanente». Mas se é certo que António Soares em Portugal compartiu do modernismo, a verdade é que ele é só ele, a sua arte desabrocha e expande-se após uma vida de trabalho isolada, semelhante à dos ascetas. Vivia para si, entregue à ânsia do mais perfeito. E conseguiu, em suas criações, a humana perfeição.
Absorvido inteiramente, obsessivamente, devotadamente à sua arte como os copistas na idade média aos originais, o pensamento tinha apenas um objectivo superior. Por isso não se perde na política. Não nascera político e sim nascera artista para as linhas e as cores. Eis um motivo forte por que António Soares foi grande na sua profissão. A sua Obra o imortalizou em Portugal e no estrangeiro.
Eu bem o conheci. Bem digo esse anoitecer de Outubro em que cadeias familiares me aproximaram de Mestre António Soares, cuja morte me sugeriu esta desataviada crónica.

Funchal, 15 de Outubro de 1978





Catálogo Digital (2) "OLHARES - Os Estudos e os Desenhos de ANTÓNIO SOARES"

Continuemos, e entremos na primeira sala. Eis o aspecto geral:

Podemos ver duas paletas penduradas, na parede, e a pequena estante com os frascos




























































Nesta primeira sala, que designámos por "António Soares - o Artista e a Família", apresentámos alguns óleos e têmperas, apenas de retratos da família, auto-retratos, e desenhos dos primeiros anos.







Juntámos também objectos pessoais, o estirador, as paletas, os pincéis, a estante com os frascos de óleos e anilinas, tudo tal como veio do seu atelier, em Lisboa, na Rua de Santo António dos Capuchos - casa onde viveu desde os anos 40 e onde faleceu.

Vamos agora ver, mais de perto, estes desenhos. Comecemos por este desenho de 1921, "A hora do pecado", um original que foi publicado no Diário de Lisboa em Maio, na secção "A Cidade". É um desenho tão característico do traço de António Soares, que decidimos elegê-lo para ser a serigrafia comemorativa do evento - à venda na Loja da Fundação Escultor José Rodrigues.

"A hora do pecado" - 1921

A seguir temos alguns desenhos dos primeiros anos, a pastel, carvão, grafite, aguadas...


"A Sé e o Tejo" - 1914
Este pastel "Diálogo Sentimental" esteve exposto na 18ª e última exposição individual organizada pelo Mestre António Soares, em 1963, na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa.
 
 "Diálogo Sentimental" - 1921

"Dignidade na pobreza" - 1912
É possível que este desenho "Caricatura", tenha estado na 3ª. Exposição do Grupo de Humoristas Portugueses, em 1920.

"Caricatura" - 1915

"O meu casaco" - 1922

"Bicha da mercearia" - 1916

"O leme desconhecido" - 1912

"A janela do meu quarto" - 1912
Este desenho, que as "traças" adoraram rendilhá-lo, ganhou o 1º prémio de um concurso de cartazes, realizado em 1916 pela Société Amicale Portugale-France e orientado pelo pintor Leal da Câmara que viveu entre França e Portugal ao longo de vários anos. Esteve exposto na Exposição de Arte e Guerra organizada pela mesma entidade. A característica mais difícil do concurso era que os cartazes tinham de ser de formato quadrado.

"A Edade do Aço" - 1916
Este pastel que mais parece um "grafitti", foi um primeiro estudo para a capa da Revista "Ideia Nacional", precisamente quando Portugal decidiu enviar um contingente para a Grande Guerra. O desenho original que acabou por ser capa, não sabemos se ainda existe e onde se encontra, mas a capa foi a que apresentamos mais adiante, pois esteve exposta numa das mesas.

"Viva a Guerra!" - 1917
"António 915" - 1915 (auto-caricatura)

Antes de continuarmos, vamos fazer referência aos objectos expostos, que se podem ver com mais pormenor abaixo, nomeadamente o estirador e os objectos que se apresentavam à vista

António Soares era muito devoto do Santo do seu nome, pelo que tem uma colecção extensa de imagens do Santo de Lisboa. Optámos por trazer uma pequena estátua, de pedra, que era menos frágil para a exposição. 
Sobre o estirador colocámos um "Livro de Honras" onde convidámos os visitantes, ao longo dos 6 meses da exposição, a expressarem a sua opinião sobre a exposição, à saída.

Vamos terminar a ronda por esta primeira sala, com mais alguns quadros, desta vez são retratos dos irmãos e da mãe e três auto-retratos, incluindo um desenho do Santo António de Lisboa.

"Santo António de Lisboa" - 1920
"Auto-Retrato" - 1922










"Auto-retrato" . 1946
















"Retrato de Américo de Miranda Soares" - 1944



"Retrato de Madame António Soares" - 1930

"Retrato de Senhora - M.G.S. constipada" - 1944

"Judith, minha irmãzinha". 1918

"Irmã do autor" - 1932

"Auto-retrato" - 1928

"Retrato de Domingos Soares" - 1928

"Retrato de Américo Soares" - 1933

"Retrato de Américo Soares aos 5 anos" - 1932

"Retrato da Mãe do autor" - 1925

"Judite" - 1925
A sala termina com estas três magníficas sanguíneas, da Mãe e dos irmãos. Mas há uma outra faceta desconhecida do Mestre António Soares que resolvemos mostrar nesta exposição - a de fotógrafo. Embora o seu retrato não tenha obviamente sido tirada por ele, mas sim pela mulher, as duas outras fotos são realmente muito boas.

"António Soares" (1930)

"Américo aos quinze anos, a fazer aviõezinhos de balsa" (1942)

"A mulher, Maria Germana, a irmã, Judite e o irmão Américo" (1934)
Faltam agora as imagens do material que estava nas mesas. Ficará para outro post. Ficam apenas, para terminar, as imagens das duas mesas desta primeira sala.